Ìyámi – Parte 1 - Introdução


A mulher vem a ser um dos mais importantes símbolos da existência do Divino, a figura feminina vem a ser a conexão do astral com o plano terreno, para a mulher foi dado o privilégio de poder gerar, trazer novas vidas e esta é sem dúvida uma das maiores atribuições e missões que um ser humano poderia possuir.
A mulher é a conhecedora, detentora dos segredos que cercam a criação da humanidade, por isso devemos ter um extremo respeito pelas mulheres e Orixás Femininos devido a sua importância durante a criação da humanidade e toda existência. Esta afirmativa de que a mulher é o símbolo da existência é a mesma atribuição da Igbadù “a cabaça da existência”. a mulher possui o ciclo menstrual, a representatividade da continuidade e da transição. A cabaça da existência representa o útero, a geração de um novo ser, é a unificação de todos os poderes contidos, de todos os elementos importantes da criação, por esse motivo também devemos considerar que A mulher é um elo de ligação com o astral, é a representação de toda a capacidade de existência, por este motivo as mulheres são mais intuitivas, possuindo a facilidade e a capacidade de comunicação com o plano espiritual.
Ìyámi significa “Minha Mãe”. Este nome faz uma referência a todas as mulheres, as Mães Ancestrais, sendo assim uma saudação, uma homenagem a todas as mulheres que atuam, exercem a função de serem uma ferramenta que permite realizar o contato dos vivos e seus ancestrais, aquela que atua como um portal permitindo que os arà-òrún (habitantes dos céus) possam realizar a transição para o Àiyé (Terra), este vem a ser um dos mais importantes papéis exercido pelas mulheres, a mulher é a guardiã da vida.
Ìyámi Ajè (Minha Mãe Feiticeira), mais conhecida pelo nome de Òsòróngà é representada principalmente por pássaros raros ou que possuem um simbolismo mágico, a representatividade do oculto, o poder místico que algumas aves noturnas possuem. Por este motivo as aves representam o poder feminino além de ser uma referência a fecundação.

O Ovo
Os ovos são a representação do útero, o poder mágico contido em cada mulher. Assim podemos considerar que o ovo é o símbolo da fertilidade, além de simbolizar a função que o útero exerce ao permitir o encontro dos sexos masculino e feminino através da relação sexual, da ejaculação, assim temos a junção Elemental dentro do útero que promoverá o surgimento de uma nova existência. É através do útero que esta junção se torna possível e isso só ocorre graças a existência da mulher, assim toda a magia da criação será realizada.
Sabemos que existem diversas definições para o assunto referente à Ìyámi, mas aqui procuramos abordar este tema de uma forma clara e objetiva.
Em muitos trabalhos ritualísticos encontramos a presença do ovo, por isso podemos afirmar mais uma vez que o ovo é a representatividade da existência, da criação, da geração, do conhecimento do oculto, isso é um conhecimento que o nosso pequeno entendimento mortal jamais poderá alcançar.
O ovo representa o poder extraordinário da criação, de tudo que conhecemos e por este motivo está presente na maioria dos rituais no Candomblé.
Apesar do ovo ser o símbolo do processo executado pelo útero, ele possui uma única diferença que é a ausência do cordão umbilical que representa o elo, ou seja, a ligação feita pelos planos material e espiritual; as três ligações importantes da matéria, do espírito e da espiritualidade, o ovo nos remete a junção.
Nos rituais o ovo representa o equilíbrio, a purificação, a quebra de energias negativas, a capacidade de construir, destruir, reconstruir, resumindo é o conhecimento existencial.
Em diversos relatos que ouvi, principalmente de pessoas que já não estão entre nós, que em alguns anos atrás em certos rituais era importante a presença da mulher no período menstrual, pois ela estaria no auge energético fazendo com que tudo fluísse com mais tranquilidade. Outros já afirmam que esta concentração energética é extremamente perigosa, por isso pediam para que as mulheres neste período não participassem de  rituais ou fizessem certos procedimentos ritualísticos para que então pudessem participar. Isso varia de casa para casa.

Mò júbà eiyn Ìyámi Òsòróngà
O Tonán ejè enun wa o tonàn ejè edo
Ejè oye ni kale o
Ejè oye ni kale o
O ye ye ye koko
O ye ye ye koko
Meus Respeitos à Minha Mãe Ancestral
Aquela que segue o rastro de sangue de nossas entranhas
Aquela que segue o rastro de sangue até o coração e o fígado
O sangue que é absorvido pela terra se cobre de fungos e vive
Mãe Pássaro, Mãe Pássaro, Mãe Pássaro

A Ìyámi pertence o sangue, principalmente o sangue menstrual que tanto falamos que vem a ser o poder feminino ativo, por este motivo Ìyámi possui uma estraita relação com diversos Orixás principalmente os que estão relacionados a criação, gestação e comunicação.
Assim podemos concluir que apesar das afirmativas contrárias que muitos fazem, que o ejè (sangue) em geral, principalmente os de animais utilizados em ritualísticas do Candomblé pertence a Ìyámi, pois o sangue é a vida, por este motivo afirmo que Ìyámi possui também uma relação com Ògún (Ogum), Orixá que está relacionado a tecnologia, a confecção de ferramentas, a ele pertence a obè (a faca), pois cabe à ele fazer com que o líquido sagrado que pertence a Ìyámi seja ofertado. Através destas questões concluímos que o homem depende essencialmente da figura feminina, sem ela nada poderá ser executado.

Lenda

Diz uma lenda que duzentas e uma pessoas chegaram à Terra, especificamente na cidade de Otá, elas vinham do Òrún (céu), elas se reuniram entre si e escolheram uma representante que seria chamada de Ìyálodè (primeira dama da sociedade/chefe de todas as mulheres). Todas que quisessem possuir Ajè deviam se dirigir a Ìyálodè levando em suas mãos uma cabaça aberta e pedir a ela que queriam ter um pássaro. Desta forma Ìyálodè daria o pássaro e o colocaria dentro da cabaça cobrindo o mesmo e entregando a quem havia pedido.
Quando as pessoas que traziam cabaças retornassem para suas casas, deveriam escondê-las em um canto que somente elas conheciam. Sempre que quisessem enviar o pássaro para alguma missão, deveriam abrir a cabaça ordenando que ele a realizasse. O pássaro faria então o que lhe foi solicitado, só retornando após realizar a missão.
Dessa forma, a representação que tem o pássaro dentro da cabaça é o poder das Ajès (feiticeiras).

Esta lenda demonstra o poder feminino, a capacidade que a mulher possui, por ter o símbolo do poder, além disso, fala do poder intuitivo, a capacidade de lidar com o oculto.

Continua...
Próximo – Parte 2 “Ìyámi e Èsù”

Samir Castro


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