Erê, Criança e Ibeji


Hoje gostaria de entrar em um tema, que considero polêmico, porém, gostaria de deixar claro ao leitor que o meu intuito é dividir aqui com vocês o que eu creio, mas, não que seja uma verdade absoluta, porém, poderá somar com o seu conhecimento. Aqui no Brasil existem alguns procedimentos que devem ser respeitados, alguns devem ser abolidos, assim como já estão sendo nos dias atuais, porém, cada um dos comportamentos e procedimentos adotados dentro do Candomblé que conhecemos possuem o sentido de manter-se viva a lembrança do período da escravidão, para que jamais caia no esquecimento o que um povo sofreu em nossas terras. Apesar de todos este resgate Cultural atual, vejo a necessidade realmente de mantermos certas questões. Agora vamos entrar em nosso tema de fato, aqui no Brasil é muito comum vermos que o Orixá manifestado em seus Elègún (Rodantes) não fala, vem de olhos fechados, possuindo muita das vezes um comportamento padronizado, é um comportamento particular do Candomblé Brasileiro, um comportamento ritualístico nosso que vem de encontro com a questão de manter-se viva a lembrança do período da escravidão, uma forma de manifesto, de protesto interno contra as atrocidades deste período, já em África, como já vimos em vídeos, documentários e até mesmo em relatos, lá o Orixá se comunica, vem de olhos abertos, possuindo total controle de suas atitudes e atos. 
Em algumas Casas de Orixá no Brasil, o mesmo pode vir falando, até mesmo de olhos abertos, caso o iniciado possua uma certa "idade de santo", em alguns locais com o resgate cultural atual não existe mais esta questão padronizada e em uma grande maioria de Casas Religiosas o Orixá jamais irá vir falando ou de olhos abertos. Tudo depende muito da concepção de cada Raiz, suas casas afiliadas e seus dirigentes. Como uma certa vez me explicaram, o fato de  o Orixá não falar no Brasil tem uma relação intima, particular com o período da escravidão, onde o silêncio ritualístico e a proteção do culto se faziam necessários para evitar assim conflitos com os senhores de engenho, tornando-se mais a frente parte da nossa identidade ritualística. Agora, irei citar aqui algumas definições que já ouvi sobre a manifestação de Erê, sem defender ou criticar qualquer tese. Aqui vamos analisar diversos pontos, pensamentos, verificarmos as semelhanças e diferenças de cada tipo de energia e ritualística.

a) Alguns historiadores afirmam que a ação do pós-transe, ou seja, o que ocorre ao final da manifestação corpórea, seria uma perda de sentidos, dando assim uma sensação de dormência, descontrole, dando assim o que chamamos de Erê.
b) Alguns afirmam que a energia da manifestação do Orixá, seria algo de extrema energia, sendo assim necessário que após esta manifestação o Orixá deixasse a sua representação infantilizada afim de trazer um certo descanso para o iniciado, o Erê seria então, o Orixá apresentando-se em sua energia infantil.
c) Alguns, ou melhor, uma grande maioria defende que o Erê vêm a ser o intermediário do Orixá, é a criança interior, sendo manifestada após o ponto de incorporação e desincorporação do Orixá, ou seja, entre a inconsciência e a consciência. Sendo um espírito de uma Criança, que representa o Orixá.

O ponto em comum destas definições é que, através do Erê é manifestada a vontade do Orixá, muitos consideram que através desta manifestação é que o noviço é orientado, aprendendo alguns elementos básicos como danças e alguns ritos específicos de seu Orixá.
Em algumas casas o Erê pode se apresentar com um nome relacionado ao Orixá, seja em português como por exemplo: Pratinha, Douradinho, Flecha Dourada, Odarinha, Ofasinho e outros; em outras casas, o Erê pode se apresentar dando nomes em Yorúbà sem a mistura com a língua portuguesa, o que é muito raro de se ver, mas existem ainda locais que possuem esta tradição.
Para muitos estudiosos a palavra Eré (Erê) significa "brincar/divertimento", sendo esta palavra derivada de Iré, que possui o significado de "fazer uma boa ação", apesar da palavra Erê estar e ser relacionada ao transe de espíritos infantis, não podemos confundir com Omodé, que significa criança em Yorubá.
Em algumas casas, o Erê, apesar de possuir comportamentos infantis, não possui em si esta classificação, podendo até mesmo fazer o uso de fumo e bebidas alcoólicas, em outros lugares esta prática é extremamente proibida. Na atualidade, o que veio se modificando com o tempo e se tornando padronizado são o uso de elementos que fazem alusão ao comportamento infantil, tais como o uso de chupetas, consumo de doces, apesar de geralmente serem utilizadas frutas, o único ponto em comum entre estas formas de culto é que o Erê escolhe sua fruta que pode estar ou não relacionada ao Orixá ao qual ele representa.
Apesar de diversas definições, opiniões, visões e formas de culto que variam de casa para casa, o que todas possuem em comum é a definição de que, em muitas cerimônias e principalmente ao que se refere ao ritual de iniciação, o Erê é importante pois é ele quem muita das vezes será o responsável de transmitir a mensagem, ou seja, o recado do Orixá durante as ritualísticas.
Além desta visão em comum, em algumas casas, o Erê, ao estar manifestado, pode exercer diversas outras funções, realizando assim o auxílio em preparações e execuções de algumas atividades internas. Isso tudo varia de casa para casa e de zelador para zelador.
O fato de o Erê estar associado à criança fez com que o mesmo fosse relacionado durante o período da escravidão a Cosme e Damião. Não somente o Erê passou por esta associação como também a Divindade Ibeji, o que veremos mais a frente.
Algumas ritualísticas que caíram no esquecimento ou foram retiradas de nossa cultura, principalmente no que se refere ao pós iniciação, o que era chamado de Apana ou no popular Panã, esta ritualística complexa é realizada em seguida ao ritual de Oruko (nome do noviço), que é o aprendizado do "profano", ou seja, após o período longe de transe, o noviço, através da manifestação do Erê "reaprende" determinadas funções, o que é chamado por alguns no popular de "quebra de kizilas", o que permite ao noviço reassumir funções como por exemplo: cozinhar, varrer, costurar, lavar, passar, sentar-se à mesa e etc. Este é o sinal ao noviço que naquele exato momento ele deve desprende-se da atividade ritualística retomando assim a normalidade da vida. Um dos elementos motivacionais que fazem com que o Erê seja confundido com Ibeji e Ibeji seja confundido com Criança, é que durante a associação e a pratica do sincretismo religioso, como forma de manter vivo o culto, estas Divindades foram associadas a Cosme e Damião, por isso é muito comum vermos o termo Ibeji sendo utilizado pela Umbanda e inclusive o termo abrasileirado que o "ibejada". 
Dentro dos rituais Umbandistas a manifestação de espíritos com comportamentos infantis pode receber os nomes de Ibeji, Ibejada, Criança, Dois Dois e até mesmo encontramos o uso do termo Erê devido à mistura de culto.
As Crianças na Umbanda são entidades que possuem em sua manifestação um comportamento infantil, simbolizando a pureza e a inocência, existem alguns atos em comum com a manifestação do Erê no culto do Candomblé, ou seja, ambas manifestações se entregam à brincadeiras, divertimentos  e principalmente, a pregação de "peças", o que faz com que todos os envolvidos naquele ritual caiam em gargalhada e em alegria sem igual. A criança na Umbanda, além do trejeito e da fala semelhante de uma criança, gostam também de brinquedos e doces. Geralmente estes espíritos se apresentam com nomes comuns, tais como: Pedrinho, Paulinho, Cosminho, Mariazinha, Marianinha e outros. Eles gostam de doces, balas, refrigerantes e também podem comer frutas e até mesmo fazer misturas mirabolantes de balas, paçocas e tudo que for bem melado dentro de um copo cheio de guaraná, que somente uma pessoa bem orientada e muito bem manifestada poderia tomar. São esses detalhes, estes comportamentos que nos mantém fiés e certos que a nossa Fé continua viva.
Dentro do Culto do Candomblé, especificamente a Nação Kétu, Ibeji é o Orixá dos gêmeos, divindades gêmeas. Ibeji possui o sentido de dualidade, de multiplicação, de interligação e interação de dois seres que se completam, além de estar associado à pureza, à inocência do ser.
Segundo alguns estudiosos, seu culto nasce na Cidade de Isokun (terras que mais tarde foram fundidas ao território de Oyo), assim como os mesmos afirmam que este culto nasce através do nascimento de filhos gêmeos em esposas de reis.
Muitos estudiosos afirmam que os principais Orixás relacionados a Ibeji são: Oxum, Xangô, Oyá, Oxossi, Oyá, Logun, Aje Saluga e Iemanjá. Como não vamos nos aprofundar muitos neste assunto agora, pois, estamos apenas buscando um entendimento comum, falaremos em outro texto exclusivamente sobre Ibeji, mas podemos dizer que, Ibeji representa tudo que nasce, tudo que se inicia e por este motivo assim como Èsù, deve ser muito bem tratado em toda e qualquer ritualística para que tudo ocorra com serenidade e perfeita ordem.

Samir Castro
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