Òsún Karè e Odè Karè - Oxum Karê e Odé Karê


Antes de entrarmos neste texto, gostaria de lembrar aos irmãos que o Candomblé é feito aqui no Brasil, possuindo assim a sua particularidade ritualística. Mesmo que pertençamos a uma determinada Nação, sempre encontramos elementos de outra nação religiosa embutida na que pertencemos. Um grande exemplo do que estou falado seria o uso do Hunjebe, um fio de contas pertencente à Nação de Jeje, muito comumente utilizado por diversas outras Nações, mas que na atualidade muitos tentam abolir este uso, porém não podemos esquecer que faz parte do costume e história do Candomblé. Além disso termos como Hun, Humpi, Lè são originários da Nação Jeje, os nossos atabaques que possuem o formato das Ngomas da Nação Angola, se formos seguir a risca os tambores Batà (Batá) deveriam ser utilizados por exemplo na Nação Kétu, então devemos lembrar que, Candomblé é Brasileiro baseado em ritualísticas vindas de diversas regiões africanas, além disso, podemos encontrar divindades pertencentes a uma mesma “família” ou por possuir semelhanças a outras sendo então cultuadas em um culto que não é a parte, como seria feito em termos de África, como por exemplo para muitos Oguntè não é Iemanjá, Ayrá não é Xangô, mas no Brasil são cultuados nos ritos destes Orixás.
Se nos aceitássemos melhor tudo seria diferente, então agora vamos entrar em nossos textos, um texto que trata de uma das questões mais polêmicas dentro da nossa religião, lembrando que, como foi dito anteriormente existem diversos fatores que tornam difíceis, delicadas e complicas as explicações no que se refere ao estudo sobre as Divindades, principalmente as pertencentes ao Candomblé Kétu.
Como sabemos existem diversos títulos que são dados a determinadas Divindades no Brasil, na verdade podem ou não ser uma Divindade à parte, que são cultuadas nas ritualísticas de outra, é sempre bom repetir para não nos perdemos no texto.
Falar sobre Odè Karè e Òn Karè não é nada fácil, mas antes de darmos início, devemos conhecer algumas Divindades que possuem ligação com as mesmas. Falaremos de forma resumida e não muito aprofundada. Lembrando que meu intuito é facilitar o entendimento de todos sobre o meu pensamento sem questionar o conhecimento de nenhuma outra pessoa e respeitando sempre.

Quem é Erinlè (Erinlé), Igboalamò e Inlè?
Existem diversos estudos relacionados à Erinlè que dizem que seu nome significa Elefante (Erin) Terra (Ilè) ou terra-elefante ou casa do elefante ou morada do elefante. Erinlè era um grande caçador de elefantes e apesar de algumas contradições, existem diversas afirmativas em comum, uma delas seria que Erinlè seria o verdadeiro filho de Ìyá Apaoka (Jaqueira), seu culto estaria segundo alguns estudiosos localizado na África as margens de um Rio que recebe seu nome, este rio seria afluente do rio Òsún, o rio Erinlè atravessa a cidade de Ìlobùú. Erinlè é uma Divindade relacionada à agricultura, considerado por outros historiadores como filho de Iemanjá e Olokun, para outros teria sido filho de Iemajá e Oku e alguns afirmam que é filho de Oko e Apaoka (afirmativa que eu sigo).
Erinlè é o patrono de Ìlobùú, bairro que é conhecido como uma grande zona comercial, principalmente de produtos agrícolas tais como inhame, milho, mandioca e òbú (que seria um tipo de giz comestível que é utilizado muito para temperar alguns alimentos).
Pelo motivo de ser uma Divindade relacionada à agricultura, as ervas, ele é o conhecedor dos segredos das folhas, da parte medicinal e por isso possui uma relação com as Ìyámi, ainda mais que Ìyá Apaoka é considera uma das mais poderosas e grandiosas feiticeiras. Os Sacerdotes de Erinlè em terras africanas trazem em suas mãos um cajado parecido com o que os sacerdotes de Òsányìn (Osanhe) trazem em suas mãos. Este cajado simboliza a importância de ambos no que se refere ao conhecimento das folhas e do oculto. Vale acrescentar que todos os cajados e símbolos que sejam um pássaro utilizados pelos Orixás  é uma representação de Ìyámi, o poder feminino, ou seja, o poder do princípio, a ligação com destas divindades com as Ajè (Feiticeiras) é uma homenagem, uma referência e uma forma de reverenciar o poder feminino.
Aqui no Brasil em algumas casas, Igboalamo e Inlè são considerados Erinlè, porém alguns sacerdotes tratam como divindades distintas. Igboalamo seria um velho caçador, da família dos Caçadores, seu nome significa “Floresta das Águas Profundas”, que faz uma alusão as águas que invadiram as florestas, onde tudo que está a sua volta foi coberto pelas águas.
Alguns afirmam que o correto é Ibuálàmò e que seria um velho ligado as águas profundas do rio Erinlè. Alguns dizem que Inlè seria um jovem caçador e o seu culto seria realizado no Rio Inlè, seria um caçador de elefantes e bravo guerreiro.

Quem é Oko?
Infelizmente, mesmo com todo acesso à cultura, temos ainda uma grandiosa dificuldade em obter certas informações referentes a determinadas Divindades dentro do Candomblé. Algumas não eram conhecidas, cultuadas ou cultuadas somente por algumas casas no Brasil. Antigamente só tínhamos o conhecimento de seus nomes, mas hoje devido ao contato mais intenso com os irmãos Nigerianos, irmãos de Cuba, algumas divindades aos poucos vão sendo introduzidas dentro do Candomblé. Esta é uma realidade negada por muitos, mas é uma grande verdade, antes tínhamos o conhecimento da existência e hoje temos o culto dentro do Candomblé Brasil.
Oko era um grande caçador de aves pequenas, principalmente de Etetù (galinha d´angola), além disso era conhecedor do preparo da terra para a agricultura, era um homem forte e muito bravo. Originário da cidade de Irawo, próxima a Oyo, foi, segundo alguns estudiosos, um homem que se tornou Orixá após sua morte, e, que durante sua vida, quando tornou-se mais idoso, dedicou-se então ao aconselhamento, a adivinhação, sendo assim um grandioso Babalaô, atraindo para si diversos seguidores. Segundo vários estudos Oko foi quem dominou as Ìyámi, tendo uma relação profunda com as mesmas, outros afirmam que ele as punia, pois ele se transformou em uma árvore chamada ìpóió, onde ali, as feiticeiras eram punidas. Traz consigo um cajado parecido com o Opaxorô, só que seu cajado é feito de ferro e a sua ponta tem forma de lâmina representando assim a caça e a colheita.

Quem é Olokun?
Como sabemos, existem muitas Divindades dentro do Candomblé e até mesmo em termos de África que causam uma certa confusão, polêmica e até mesmo indefinição. Em algumas regiões africanas, Olokun é considerado uma divindade feminina, em outras é considerado uma divindade masculina, isso fez com que em sua chegada ao Brasil fossem geradas diversas especulações sobre sua origem e definição, até mesmo dentre algumas destas teorias teria uma que afirma que seria uma Divindade assexuada.  Para diversos povos Olokun é um Orixá que rege os oceanos, onde toda a vida foi originada, sendo assim ele o responsável por tudo que está nas profundezas dos oceanos e os mistérios contidos nele. É uma Divindade que teve diversas esposas sendo algumas delas Iemanjá, Oxum e algumas divindades femininas cultuadas no Brasil nos ritos destas. Olokun é a bondade, mas ao mesmo tempo é a fúria do mar que pune e castiga. Olokun é a força da natureza, benção e a punição do mundo.

Quem é Apaoka/Opaoka?
Mais uma divindade que temos dificuldade de falar, durante anos vários conceitos também foram geradas referente a mesma. Apesar de tanto conhecimento que temos, as pessoas se esqueceram por exemplo que Opaoaka também é conhecida como Ìyá Nbanba, Ìyá Mo e tantos outros nomes, Opaoka é extremamente importante dentro do Candomblé Kétu pois teve uma grande influência na fundamentação da cidade de Kétu. Consta em diversas lendas que Ìyá Apaoka tinha duas irmãs, uma se chamava Mepere e outra Bokolo, antes da fundação de Kétu, as três irmãs fizeram um pacto onde juraram nunca dar à luz a uma criança, porém, Apaoka não cumpriu este trato e deu a luz a Erinlè, filho de Apaoka e Oko.

Quem é Ibeji?
Dentro do nosso culto, Ibeji é o Orixá dos gêmeos, divindades com comportamento infantil, relacionadas com todos os Orixás. Ibeji possui o sentido de dualidade, de multiplicação, de interligação, interação entre dois seres que se completam, além de estarem associados a pureza e à inocência. Ibeji representa que dois corpos separados são bons, mas quando unidos tornam-se um só, fortalecendo-se em uma unidade com grandioso poder.
Segundo alguns estudiosos o culto relacionado a Ibeji nasce na Cidade de Isokun (terras que mais tarde foram fundidas ao território de Oyo). Alguns afirmam que este culto nasceu através do nascimento de filhos gêmeos em esposas de reis. Alguns estudiosos afirma que os principais Orixás relacionados a Ibeji são: Oxum, xangô, Oyá, Oxossi, Oya, Logun Ede, Aje Saluga e Iemanjá.
Como não vamos nos aprofundar muito neste assunto, estamos apenas buscando um entendimento para seguirmos o texto, mas em breve falarei sobre o tema Ibeji em nosso Blog. Podemos dizer de forma básica que Ibeji representa tudo que nasce, tudo se inicia e por este motivo assim como Èsù (Exú), deve ser muito bem tratado para que toda e qualquer ritualística ocorra com serenidade e em perfeita ordem.

Quem seria Otìn?
Esta seria uma divindade que faz parte da família dos caçadores e no Brasil é muito confundida com Odè, por este motivo é cultuada como “qualidade” ou título de Odè. Porém dentro de um outro conceito, Otìn seria considerada por muitos uma amazona, uma grandiosa caçadora, filha de Erinlè e sua maior companheira, para outros seria um Orixá masculino sendo então tratada como uma qualidade de Odè. Otìn representa a liberdade, desprendimento das amarras, o viver ao ar livre, mas sem nunca esquecer as suas origens. Otìn é aquela que mesmo de longe protege os seus, sempre procurando dentro das suas caças noturnas prover o sustento de toda a sua comunidade. Ela conhece o segredo da caça, da guerra, da agricultura, o uso das ervas, estando também ligada a Ìyámi, Ogum, Osanhe, Omolu, Oko, Exú, Iemanjá e tantos outros Orixás. Otìn é o simbolismo da atenção, da concentração do caçador determinado em seus objetivos, aquele que tem a paciência, que pega as melhores presas, sempre tem as melhores conquistas, é aquela que age na hora e no momento certo sem ser afoita. Ela é aquela que é reservada, pensativa, que está sempre trabalhando mentalmente pelas melhorias, que tem o prazer da busca pelo melhor.
Como a maioria dos caçadores traz consigo um arco e fecha (Ofà), o Erukeré (rabo de cavalo) e uma lança
Odè Karè e Òsún Karè
Dentro deste texto resolvi falar anteriormente sobre algumas Divindades e suas definições a título de curiosidade. Agora sim chegamos aos Orixás que nos propomos a tentar explicar dentro deste texto...
Como sabemos a relação de Òsún (Oxum) com os gêmeos sempre foi muito marcante por este motivo muitos estudiosos afirmam que além de Lògún Edè e Otìn, Òsún e Erinlè tiveram mais dois casais que seriam Odè Karè e Òsùn Karè.  Em diversos mitos vemos a relação de Òsùn com Ibeji (gêmeos) e estudos que apontam tanto Xangô, Erinlè e até mesmo Oxossi na questão paternal destas Divindades.  Como em muitas lendas Lògún, Odè Karè e Òsùn Karè teriam relações afetivas com Oyà e Iemanjá, tendo sido ambos criados e até mesmo algumas lendas afirmam que estas divindades foram geradas por estes dois Orixás femininos. Isso é o que encontramos dentro do Candomblé Brasil. A que eu uso como para mim sendo a correta é que todos seriam gerados diretamente por Òsùn.
Odè Karè está relacionado as caças as margens dos rios, a pesca de pequenos peixes, por ser filho de Erinlè, assim como seu pai possui uma grande relação com as Ìyámi, possuindo uma grande relação com Apaoka, o tornando assim um grande feiticeiro, conhecedor das folhas, tendo assim uma ligação com Osanhe. O mesmo ocorre com Òsún Karè, que está diretamente relacionada ao culto feminino.
Ìyépondà, seria o título ou qualidade de Òsún que juntamente com sua filha Karè recebem diversas cantigas que enaltecem o poder feminino e a sua importância perante a sociedade, sendo então consideradas líderes das mulheres.
Ex:
“Ìjèsà mó rí bo oun ó Ìjèsà
Ìjèsà mó rí bo oun ó Ìjèsà”

Tradução:
Eu vi e observei o povo de Ijexá fazendo culto para ela
Eu vi e observei

“Òsún dè Karè! Karè Ijesà! Òsún dè Karè! Karè Ijesà”
Òsún Karè chegou trazendo a música e a alegria ao povo de Ijexá! Oxum Karè Chegou!

Existe uma lenda que é contada como tendo sido Iemanjá, mas seria de Òsún Ìyépondà, diz a lenda que ela passeando pelas matas avistou de longe seus filhos Lògún e Otìn, ela ficou ali olhando seu filho. O tempo passou, Òsún Ìyépondà e Erinlè tiveram mais dois filhos e Òsùn deu a eles o nome de Òsún Karè e Odè Karè.  A beleza de seus filhos gêmeos era tão grandiosa que deixava a todos encantados, com o pai aprenderam a caça, com a mãe a pesca e os encantamentos. Mas um sempre disputava espaço com o outro, estavam sempre brigando e disputando quem seria o melhor.
Um dia seus pais decidiram fazer um pequeno teste, pediram para eles que fossem cada um para um canto e trouxessem o maior número de peixes, de caças, os locais eram determinados pelos pais, então eles não sabiam se algo já tinha sido preparado naquele local para eles.
Ao retornarem, fizeram a contagem de suas conquistas, descobriram que caçaram e pescaram a mesma quantidade. Assim aprenderam que são bem mais fortes juntos do que desunidos, que a união de ambos pode alcançar objetivos trazendo benefícios a todos..

Texto Samir Castro

 Este Texto é dedicado a Jennifer Mascarenhas, que sempre me apoiou desde o início do meu Blog, me ajudando com a criação, com as postagens e hoje você também faz parte deste projeto. Obrigado pelo carinho e pelo apoio. Que Òsún Karè sempre lhe cubra de muita paz, tranquilidade e que traga muitas conquistas em sua vida. Asè!
* Esta dedicatória foi escrita na primeira Edição do Blog, na atualidade estamos 5 anos juntos, dois filhos, nos aventurando pelo Brasil, agora estamos no Rio de Janeiro e com muita história para contar.

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