Resumo da História do Zé Pilintra que eu Trabalho

“Nasci em 1908. Fui consagrado ao Orixá Ogum. Eu era Ogã e meus familiares todos faziam parte do culto. Éramos negros e sofríamos muito com o preconceito, um preconceito velado, porém existente. Eu era filho de marceneiro e desde pequeno auxiliava meu pai na confecção de cadeiras e móveis em geral.
Aos 7 anos de idade meu pai resolveu migrar de Salvador, nossa terra natal, para o Rio de Janeiro. Fomos eu, meu pai, minha mãe e mais 2 amigos cujos familiares permitiram irem conosco. Tínhamos a ilusão de estar na capital brasileira e que a vida seria bem mais fácil. Mudamo-nos para as proximidades da Lapa, nas imediações de  Santa Tereza. Ali trabalhamos naquilo que sabíamos fazer, com amor e carinho; porém, a situação se agravava com o passar dos anos. Então, aos 15 anos de idade, eu e meus amigos iniciamos uma certa “arrecadação financeira”, no intuito de melhorarmos um pouco nossas condições de vida. Pequenos golpes com jogos de azar nos garantiam um bom rendimento financeiro. Assim, nos tornamos bons malandros da vida fácil, o que era, de fato, bem mais fácil do que tentarmos trabalhar normalmente. E seguimos o ritmo natural da época, que perdurou por anos e anos.
Lembro que aos 16 anos de idade, cada um de nós tomou um rumo, e, eu e meus dois amigos nos separamos. Nessa época, o mundo foi meu dono. Porém, nunca esqueci meus pais e, sempre que podia, levava um dinheiro para auxiliá-los. Com 17 anos trabalhei de forma informal, o que condizia com a época, na zona portuária do Rio de Janeiro, e lá, durante as idas e vindas de algumas pessoas, me apaixonei por uma mulher, com quem passei a encontrar durante dias e noites.
Para trabalhar, eu saía de casa com meus pés descalços, sem camisa, com um fio de conta azul e branco e um fio vermelho e azul, cruzados, um punhal e o meu chapéu de palha. Eu era um homem negro bonito, dos olhos vermelhos, e totalmente encantado por aquela mulher. O que não notei é que, nos nossos encontros, eu era vigiado de longe por seu marido.
Esses eram os raros momentos em que eu me vestia com um terno branco, que tinha conseguido para poder participar da musicalidade e das poucas distrações que a vida me permitia na época.
Um dia, saindo do meu trabalho, me vi cercado por 4 homens, que ao virem me atacar, a única defesa que encontrei foi utilizar meu punhal que sempre estava comigo e claro, gingava meu corpo tentando acertá-los, como bom capoeirista que era. Infelizmente, os 4 se tornaram vários homens, pois era uma boa emboscada, e quando eu menos esperava, vi minhas mãos presas e levei um soco na região da barriga, perdendo o ar e, por alguns segundos, os sentidos. Por mais forte que eu fosse não tinha mais forças para lutar e me entreguei aqueles golpes. Ao olhar para o lado vi que meus dois amigos, dos quais me havia separado, estavam ali tentando me ajudar, mas também foram surrados de forma covarde.
Fui morto com meu próprio punhal e meus 2 amigos também: os 3 degolados e largados em um monte de ferros. Como digo sempre: “Sou de Ogum, morri com a faca de Ogum e no Ferro de Ogum”.
Minha vida sempre foi sofrida. Meu coração era doce e minha mente era ágil. Minhas atitudes eram tomadas de acordo com a forma com que os problemas se apresentavam, de acordo com o momento, apenas por uma questão de sobrevivência.
Apesar de estar ligado à Linha de Zé Pilintra, gosto muito das cores AZUL e BRANCO: o Branco é paz, é calma, e o Azul é a espiritualidade, a saúde, relacionado a Ogum, Cosme e Damião (os grandes médicos), e Iemanjá.
Minha roupa é diferente dos demais, mas sou um Zé, sou Zé Malandro, sou Zé Curador,
Sou Zé Soldado de Nosso Senhor.”

Autor e Pesquisa: Samir Castro
Curiosidades:
Gente do samba: malandragem e
identidade nacional no final da Primeira República
Tiago de Melo Gomes
Arcos da Lapa:
Bairro da Lapa:
Malandragem:
Santa Tereza:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Teresa_%28bairro_do_Rio_de_Janeiro%29

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