Ìyámi






Para as mulheres foi dado um dos maiores privilégios, qual seja, a função de gerar a vida, de trazer ao mundo novos seres. Esta é uma das maiores maravilhas, que aproximam as mulheres ao Divino, tornando-as conhecedoras e detentoras dos segredos que cercam a criação humana. Por este motivo, devemos ter um grandioso respeito a todas as mulheres e todas as representações femininas dos Orixás, pois podemos considerar que elas são conhecedoras do poder existencial.

A mulher torna-se símbolo da existência, a partir do momento que a mesma passa a menstruar. A ela é atribuída a “cabaça da existência”, que é representada pelo útero, pois é no útero que é gerado o novo ser. Além disso, a facilidade, a capacidade feminina em se comunicar com o plano espiritual, é muito maior que a do homem, o que é comprovado dentro das Religiões Afro Brasileiras.

Em tradução literal, “Ìyámi” significa “Minha Mãe”, nome que faz referência as Mães Ancestrais. Esta palavra é uma forma de saudar e homenagear as mulheres, que possuem o poder gerador, atuando assim como uma ferramenta que permite realizar o contato dos vivos e seus ancestrais, o ser humano e o plano espiritual, sendo aquela que atua como um portal, permitindo assim, que os arà-òrún (habitantes dos céus) possam fazer a transição para o Àiyé (terra). Este é um dos mais importantes papéis exercidos pela mulher.

Como estamos aqui falando de uma forma geral, tentando enaltecer e explicar o poder feminino, deixo então claro que, dentro deste texto, por motivos de segredo ritualístico, não vamos nos aprofundar muito sobre as funções exercidas pelas mulheres dentro do Candomblé, ou seja, em certos cargos e suas respectivas funções.

Ìyámi Ajè (Minha Mãe Feiticeira), mais conhecida por Ìyámi Òsòróngà, é representada principalmente por pássaros raros ou que possuem um simbolismo mágico ou uma representatividade do conhecimento do oculto, ou seja, o poder místico que algumas aves noturnas possuem, sendo também uma associação do poder feminino, fazendo assim, uma referencia à fecundação.

O ovo vem a ser a representação do útero, o poder mágico contido em cada mulher, a detenção da “cabaça da existência”. Podemos considerar que o ovo é o símbolo da fertilidade. Simboliza a função que o útero exerce ao permitir o encontro dos sexos masculino e feminino, ou seja, através da relação sexual, através da ejaculação, temos a junção elemental que dentro do útero promoverá o surgimento de uma nova existência. É através do útero que essa junção é possível e só ocorre através da existência do elemento feminino e assim, toda a magia da existência é realizada.



Sabemos que existem diversas definições para o assunto referente à Ìyámi, mas aqui procuramos abordá-lo de forma clara e objetiva, sem nos aprofundarmos muito, por ser um assunto polêmico, cercado de muito mistério e, além disso, procuramos proporcionar um entendimento que seja fácil para todos, de uma forma básica somente.

Em muitos trabalhos ritualísticos encontramos a presença do ovo; por isso podemos afirmar mais uma vez, que o ovo é a representatividade da existência, da criação, da geração, do conhecimento do oculto, ou seja, do conhecimento que o nosso pequeno entendimento mortal jamais poderá alcançar. O ovo representa o poder extraordinário da criação e de toda a existência, de tudo que conhecemos, e por este motivo, está presente na maioria das rituais do Candomblé.

Apesar de o ovo ser o símbolo do processo executado pelo útero, possui uma única diferença, que é ausência do cordão umbilical, que representa o elo, ou seja, a ligação feita entre os planos material e espiritual, as três ligações básicas às vezes esquecidas, a ligação de matéria, espírito e plano espiritual. Porém, como já foi dito anteriormente, o ovo nos remete a junção do masculino e do feminino, simbolismo este que o ovo exerce durante os rituais, representando assim o equilíbrio, a purificação, a quebra de energias negativas, a capacidade de construir, destruir, reconstruir, ou seja, o conhecimento existencial. Mas, não vamos nos aprofundar muito nesta questão, devido a sua polêmica e complexibilidade.

Além de toda esta polêmica gerada, recordo-me de alguns relatos que ouvi, de pessoas que não estão mais neste mundo, mas como sou uma pessoa de respeito e não tenho autorização para citar seus nomes, vou apenas elucidar alguns pensamentos. Como este assunto, há alguns anos atrás, era motivo de muitas especulações, mais que nos dias atuais, muitos afirmavam que a mulher, no período menstrual, tinha a detenção de um grande poder, por este motivo a sua participação em diversos rituais neste período era essencial, pois seria o momento em que uma grande energia estaria ativa. Outros já afirmam que, neste período a mulher deveria passar por diversos procedimentos ritualísticos, mantendo-se afastada de determinados rituais, estando assim apenas se reservando para este período, pois alguns consideram que esta concentração de energia, pode não somente atrair boas energias, mas abrir um campo que atrai toda e qualquer força energética.  Mas isso varia de casa pra casa, de entendimento para entendimento; como disse, a questão é polêmica.



Mo juba eiyn Ìyámi Ìyámi Òsòróngà

O tonàn ejè enun wa O tonàn ejè edo

Mo juba eiyn Ìyámi Òsòróngà

O tonàn ejè enun wa O tonàn ejè edo

Ejè oye ni kale o

Eje oye ni kale o

O ye ye ye koko

O ye ye ye koko

Meus respeitos à Minha Mãe Ancestral

Aquela que segue o rastro de sangue de nossas entranhas

Aquela que segue o rastro de sangue até o coração e o fígado

Meus respeitos as Minhas Mães Ancestrais

Aquela que segue o rastro de sangue de nossas entranhas

Aquela que segue o rastro de sangue até o coração e o fígado

O sangue que é absorvido pela terra se cobre de fungos e vive

O sangue que é absorvido pela terra se cobre de fungos e vive

Mãe Pássaro, Mãe Anciã, Mãe Pássaro, Mãe Anciã

A Ìyámi pertence o sangue, principalmente o sangue menstrual que tanto falamos, que vem a ser o poder feminino ativo e por este motivo, Ìyámi possui uma estreita relação com diversos Orixás, principalmente os relacionados ao princípio da vida, da criação, da gestação, da comunicação. Principalmente Oyá, Òsún, Ìyémanjà e Nàná, Ìyábàs, relacionadas ao princípio e ao fim.



Assim podemos concluir também, apesar de afirmativas contrárias, que até o ejè (sangue) utilizado dos animais durante as ritualísticas do Candomblé, é pertencente a Ìyámi, pois o sangue é a representatividade da vida; por este motivo podemos dizer que Ìyámi possui uma relação também com Ògún (Ogum),  pois a este Orixá está relacionado a tecnologia e a confecção de ferramentas; pertence o Obè (a faca), pois cabe a ele fazer com que o líquido sagrado pertencente a Ìyámi lhe seja ofertado. Podemos então afirmar novamente a dependência essencial do homem sobre a figura feminina: sem ela nada poderá ser executado.



LENDA

Conta uma lenda que, duzentas e uma pessoas chegaram à Terra na cidade de Otá, vindas do Òrún (Céu); reuniram-se então e escolheram entre si uma representante, que seria chamada de Ìyálodè (Mãe Primeira Dama da Sociedade/Chefe de todas as Mulheres). Todas que quisessem possuir o poder de Ajè, deveriam se dirigir à Ìyálodè, trazendo em suas mãos uma cabaça aberta, e dizendo que desejavam ter um pássaro. Assim, a Ìyálodè daria o pássaro e o colocaria dentro da cabaça, cobrindo em seguida e entregando a quem havia pedido.

Quando as pessoas que traziam as cabaças retornassem para suas casas, deveriam escondê-las em um canto onde somente elas conheciam. Sempre que quisessem enviar o pássaro a alguma missão, deveriam abrir a cabaça ordenando que ele a realizasse. O pássaro faria então o que lhe foi solicitado, só retornando após realizar a missão. Dessa forma, a representação que tem o pássaro dentro da cabaça é o poder das Ajès (feiticeiras).

Esta lenda demonstra o poder feminino, a capacidade que a mulher possui por ter o símbolo do poder; além disso, mostra o poder intuitivo e a capacidade de lidar com o oculto, com aquilo que é misterioso aos nossos olhos, a detenção da magia.



Texto: Samir Castro



Um Texto bem explicativo sobre Ìyámi (do Blog Religiões Afro Brasileiras e Política – Oluandeji)

Quando se pronuncia o nome de Iyá-Mi Osorongá, quem estiver sentado deve se levantar, quem estiver de pé fará uma reverência, pois se trata de temível Orixá, a quem se deve apreço e acatamento. Iyámi Osorongá é a síntese do poder feminino, claramente manifestado na possibilidade de gerar filhos e, numa noção mais ampla, de povoar o mundo. Quando os Iorubas dizem “nossas mães queridas” para se referirem às Iyá Mi, tentam, na verdade, apaziguar os poderes terríveis dessa entidade. Donas de um axé tão poderoso como o de qualquer Orixá, as Iyámi tiveram o seu culto difundido por sociedades secretas de mulheres e são as grandes homenageadas do famoso festival Gèlèdè, na Nigéria, realizado entre os meses de Março e Maio, que antecedem o início das chuvas do país, remetendo imediatamente para um culto relacionado à fertilidade.
As Iyámi tornaram-se conhecidas como as senhoras dos pássaros e a sua fama de grandes feiticeiras associou-as à escuridão da noite; por isso também são chamadas Eleyé, e as corujas são os seus principais símbolos.
A sua relação mais evidente é com o poder genital feminino, que é o aspecto que mais aproxima a mulher da natureza, ou seja, dos acontecimentos que fogem à explicação e ao controle humano. Toda a mulher é poderosa porque guarda um pouco da essência das Iyámi; a capacidade de gerar filhos, expressa nos órgãos genitais femininos, assustou sempre os homens.
As mães são compreendidas como a origem da humanidade e o seu grande poder reside na decisão que tomar sobre a vida de seus filhos. É a mãe que decide se o filho deve ou não nascer e, quando ele nascer, ainda decide se ele deve viver.

Iyámi é a sacralização da figura materna, por isso o seu culto é envolvido por tantos tabus. O seu grande poder deve-se ao fato de guardar o segredo da criação. Tudo o que é redondo remete ao ventre e, por consequência, às Iyámi. O poder das grandes mães é expresso entre os orixás por Oxum, Iemanjá e Nanã Buruku, mas o poder de Iyá-Mi é manifesto em toda a mulher, que, não por acaso, em quase todas as culturas, é considerada tabu. As denominações de Iyá-Mi expressam as suas características terríveis e mais perigosas e por essa razão os seus nomes nunca devem ser pronunciados; mas quando se disser um dos seus nomes, todos devem fazer reverencias especiais para aplacar a ira das Grandes Mães e, principalmente, para afugentar a morte.

As feiticeiras mais temidas entre os Iorubas e no Candomblé são as Àjé e, para se referir a elas sem correr nenhum risco, diga apenas Eleyé, Dona do Pássaro. O aspecto mais aterrador das Iyámi e o seu principal nome, com o qual se tornou conhecida nos terreiros, é Osorongá, uma bruxa terrível que se transforma no pássaro do mesmo nome e rompe a escuridão da noite com o seu grito assustador.

As Iyá-Mi são as senhoras da vida, mas o corolário fundamental da vida é a morte. Quando devidamente cultuadas, manifestam-se apenas no seu aspecto benfazejo, são o grande ventre que povoa o mundo. Não podem, porém, ser esquecidas; nesse caso lançam todo o tipo de maldição e tornam-se senhoras da morte. O lado bom de Iyá-Mi é expresso em divindades de grande fundamento, como Apaoká, a dona da jaqueira, a verdadeira mãe de Oxóssi. As Iyámi, juntamente com Exú e os ancestrais, são evocadas nos ritos de Ipadé, um complexo ritual que, entre outras coisas, ratifica a grande realidade do poder feminino na hierarquia do Candomblé, denotando que as grandes mães é que detém os segredos do culto, pois um dia, quando deixarem a vida, integrarão o corpo das Iyámi, que são, na verdade, as mulheres ancestrais.
. Pássaro africano, Oxorongá emite um som onomatopáico de onde provém seu nome. É o símbolo do Orixá Iyami, ai o vemos em suas mãos. Aos seus pés, a coruja dos augúrios e presságios. Iyami Oxorongá é a dona da barriga e não há quem resista aos seus ebós fatais, sobretudo quando ela executa o Ojiji, o feitiço mais terrível. Com Iyami todo cuidado é pouco, ela exige o máximo respeito. Iyami Oxorongá, bruxa é pássaro.

As ruas, os caminhos, as encruzilhadas pertencem a Esu. Nesses lugares se invoca a sua presença, fazem-se sacrifícios, arreiam-se oferendas e se lhe fazem pedidos para o bem e para o mal, sobretudo nas horas mais perigosas que são ao meio dia e à meia-noite, principalmente essa hora, porque a noite é governada pelo perigosíssimo Odu Oyeku Meji. À meia-noite ninguém deve estar na rua, principalmente em encruzilhada, mas se isso acontecer deve-se entrar em algum lugar e esperar passar os primeiros minutos. Também o vento (afefe) de que Oya ou Iansan é a dona, pode ser bom ou mau, através dele se enviam as coisas boas e ruins, sobretudo o vento ruim, que provoca a doença que o povo chama de “ar do vento”. Ofurufu, o firmamento, o ar também desempenha o seu papel importante, sobretudo á noite, quando todo seu espaço pertence a Eleiye, que são as Ajé, transformadas em pássaros do mal, como Agbibgó, Elùlú, Atioro, Osoronga, dentre outros, nos quais se transforma a Ajé-mãe, mais conhecida por Iyami Osoronga. Trazidas ao mundo pelo odu Osa Meji, as Ajé, juntamente com o odu Oyeku Meji, formam o grande perigo da noite. Eleiye voa espalmada de um lado para o outro da cidade, emitindo um eco que rasga o silêncio da noite e enche de pavor os que a ouvem ou vêem. Todas as precauções são tomadas. Se não se sabe como aplacar sua fúria ou conduzí-la dentro do que se quer, a única coisa a se fazer é afugentá-la ou esconjurá-la, ao ouvir o seu eco, dizendo Oya obe l’ori (que a faca de Iansan corte seu pescoço), ou então Fo, fo, fo (voe, voe, voe).

Em caso contrário, tem-se que agradá-la, porque sua fúria é fatal. Se é num momento em que se está voando, totalmente espalmada, ou após o seu eco aterrorizador, dizemos respeitosamente A fo fagun wo’lu (saúdo a que voa espalmada dentro da cidade), ou se após gritar resolver pousar em qualquer ponto alto ou numa de suas árvores prediletas, dizemos, para agradá-la Atioro bale sege sege (saúdo] Atioro que pousa elegantemente) e assim uma série de procedimentos diante de um dos donos do firmamento à noite. Mesmo agradando-a não se pode descuidar, porque ela é fatal, mesmo em se lhe felicitando temos que nos precaver. Se nos referimos a ela ou falamos em seu nome durante o dia, até antes do sol se pôr, fazemos um X no chão, com o dedo indicador, atitude tomada diante de tudo que representa perigo. Se durante à noite corremos a mão espalmada, à altura da cabeça, de um lado para o outro, afim de evitar que ela pouse, o que significará a morte. Enfim, há uma infinidade de maneiras de proceder em tais circunstâncias.

BABALORISÀ GUYAN LUCIANO D’OMULU JAGUN

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