Òsàlà (Oxalá) e Òságiyàn (Oxaguiã)






Dia: Sexta-feira
Cor:
Oxalá – Branco leitoso
Oxaguiã – Azul Claro e Branco Leitoso
Símbolos:
Oxalá – Opaxoró (cajado)
Oxaguiã – mão de pilão, espada e escudo
Saudação: Eèpàà Bàbá! – Meus respeitos meu pai
Eèpàà Bàbá Òrìsànlà nínu won gbogbo Òrìsà! Eèpàà Bàbá! – O grande Orixá, o Orixá mais alto dentre todos os Orixás! Respeitos ao Pai!

Como sabemos, o Candomblé é um grandioso mistério onde diversas teses, diversas opiniões se fazem presentes. Todos os questionamentos, opiniões similares e contraditórias sobre a História dos Orixás e seus Fundamentos, são motivados pela maior destruição histórica: o período da escravidão. Muitos conhecimentos se perderam e mesmo com todo acesso nos dias atuais e o contato com pessoas oriundas de regiões africanas, ainda se tornam difíceis as definições reais sobre o culto. Por isso é tão importante o estudo minucioso dos relatos feitos pelos mais velhos, os estudos das religiões para a criação de teses e para defesa real do fundamento religioso. O Blog Èsù Akèsan não defende uma tese única e sim, une diversas opiniões, estudos e relatos colhidos por mim, Samir Castro. Busco sempre escrever meus textos baseados no contato com diversas pessoas.
Os Orixás Fun Fun são ditos por diversos historiadores como aqueles que participaram da criação da humanidade e Terra; o branco representa o princípio, sendo a essência das demais cores existentes.
Oxalá é considerado o grande Orixá da Criação, utilizando de seu Opàsorò (Opaxoro), o cajado de Oxalá, um bastão muitas vezes representado pela prata ou feito de madeira, que representa o elo que liga o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.
Oxalá é o equilíbrio da existência, o equilíbrio dos homens e do espírito.  Oxalá é a representação da construção, da reconstrução e da destruição. É o grande sábio, o homem calmo, coerente, mas, ai de quem provocar sua ira. Se alguém sentiu na pele a ira de Èsù (Exú), pode multiplicá-la por mil, quando conhecer a ira de Oxalá.
Oxalá pode perdoar os erros diversas vezes, pode tolerar as falhas em forma de tentar dar uma chance aquele que as comete, mas, quando resolve dar a sua “bronca”, ela é inesquecível e devastadora.
O Alá (pano Branco) representa o conhecimento da criação, o conhecimento da vida e da morte. É este pano que cobre o nosso corpo durante o período do recolhimento religioso. O Alá representa calma, sabedoria, paz, é o portal que liga os dois mundos, representando a transição entre os mesmos.
Como sabemos, as lendas dos Orixás da forma que são contadas, são, nada mais nada menos, que uma maneira de serem fixadas na mente dos adeptos de nossa religião. Dentro das lendas encontramos diversos fundamentos, formas de culto, oferendas e, além disso, diversas mensagens de motivação, garra e superação.

Lenda de Oxalá
Oxalá, o grande rei de Ifon, resolveu ir à cidade de Oyó, visitar seu amigo Xangô. Antes de partir, consultou um Babalaô para saber se sua ausência comprometeria as coisas em seu reino, e se as condições para a viagem eram favoráveis. O Babalaô recomendou que Oxalá não fizesse a viagem, pois um grande mal estava por vir.
Oxalá disse que, de qualquer forma faria a viagem, e o Babalaô então, o orientou a não recusar ajuda a ninguém que encontrasse pelo caminho, e recomendou que levasse consigo três mudas de roupa. Oxalá então partiu para sua viagem.
Tão logo deixou os limites da cidade, encontrou um velho carroceiro que tentava colocar alguns barris de dendê sobre a carroça, e este, pediu à Oxalá que o ajudasse. Seguindo as recomendações do Babalaô, Oxalá resolveu ajudá-lo. Ao colocar um dos barris sobre a cabeça, o carroceiro (que era Èsù (Exú) disfarçado) virou o barril sobre Oxalá, derramando todo dendê em sua roupa). Pacientemente Oxalá dirigiu-se a um rio próximo, lavou-se, e largou a roupa como oferenda, prosseguindo a viagem.
Mais adiante, foi abordado por um outro homem que lhe pediu ajuda para carregar um grande saco. Oxalá atenciosamente o ajudou. Mas, novamente era Èsù que se preparava para a próxima brincadeira com Oxalá. No interior do saco havia carvão, e tão logo Oxalá pegou o saco, Èsù o rasgou, fazendo com que a roupa branca de Oxalá ficasse completamente suja. E mais uma vez, Oxalá foi se lavar na beira de um rio e procedeu da mesma forma que antes.
Já bem cansado da viagem, Oxalá lentamente andava pelo caminho, quando novamente um homem o abordou e pediu ajuda para carregar um barril. Novamente era Èsù que trazia vinho de palma dentro do barril. No momento em que Oxalá foi ajudar, Exú pegou o barril e jogou no chão e o cheiro era tão forte que bastou, somente o cheiro, para Oxalá ficar embriagado. Mais uma vez ele foi vítima das brincadeiras de Exú. E como das outras vezes, fez o mesmo procedimento.
No decorrer da longa viagem, a roupa, a ultima roupa que ele trouxe como reserva, ia se sujando. Ao se aproximar da estrada da cidade de Oyó (onde reina Xangô), Oxalá viu que o cavalo do rei estava solto e resolveu levá-lo de volta à cidade. Quando estava a caminho, foi surpreendido por guardas de Xangô, que o prenderam pensando tratar-se de um ladrão de cavalos. Os guardas os levaram para a prisão e o encarceraram sem que ele pudesse dar maiores explicações.
Durante os vários anos que seguiram, o reino de Xangô conheceu todos os tipos de doenças, pestes, todas as piores situações que podem ocorrer com um povo. Passados sete anos, Xangô resolveu consultar o Babalaô para saber o motivo de tanto castigo. O Babalaô disse que tinha sido cometida uma grande injustiça no seu reino, que havia um inocente preso. Mais do que depressa, Xangô ordenou a seus guardas que trouxessem todos os prisioneiros, encarcerados nos últimos anos. Quando foram colocados à frente de Xangô, este entrou em desespero pois viu entre eles o seu grande amigo Oxalá.
Furioso ordenou que Oxalá fosse solto imediatamente, mandou seus guardas reunirem todos os habitantes de seu reino, para lavarem Oxalá, e que trouxessem comida e bebida a todos. E todos deveriam manter-se em silencio, em respeito aos sete anos de prisão e sofrimento de Oxalá.
Desta lenda tiramos algumas interdições de Oxalá, tais como bebidas, carvão e dendê, bem comoo surgimento da cerimônia denominada “Águas de Oxalá”, que trataremos com mais elementos futuramente. Existem diversas formas de contar esta lenda. Em algumas encontramos que Oxalá teria sentido tanta sede com as artimanhas de Exú que, ao perfurar uma palmeira, ao invés de água, tinha vinho dentro da mesma. Outras contam que Oxalá estava com tanta sede que, ao encontrar um homem pelo caminho que lhe ofereceu água dentro de uma cabaça, ao invés de água, lá havia vinho. Não importa a forma como a lenda é contata, o que importa é o fundamento nela contido.




Agora falaremos sobre Òságiyàn  (Oxaguiã). Como disse diversas vezes, apesar de todo conhecimento que possuímos e os acessos às informações sobre os Orixás e suas lendas, existem algumas confusões que ainda são feitas. Uns dizem que Oxaguiã é o Oxalá jovem e que não seria filho de Oxalá, é apenas uma representação jovem da mesma energia. Outros, assim como eu, defendem que Oxaguiã, apesar de ser cultuado com os mesmos ritos de seu Pai Oxalá, é um jovem guerreiro, que também se veste de Branco, pois como já falamos anteriormente, a cor branca simboliza o conhecimento e a sabedoria da vida e da morte, além de possuir uma relação principalmente com os Orixás Ogum (pois consta, em muitas lendas, que Oxaguiã teria ensinado a arte da guerra para Ogum), Oyá e Iemanjá.



Lenda de Oxaguiã
Oxaguiã  é um Orixá jovem e guerreiro, filho de Oxalufon e grande soberano de Ejibô. Certo dia, quando vivia em Ifon com seu pai, saiu pelo mundo em viagem, partindo com alguns amigos fiéis.
Muitos foram os locais onde esteve, adquirindo e transmitindo conhecimentos. O tempo passou e Oxaguiã retornou às suas raízes. Chegando a Ejibô, tomou o título de Elejigbo (o Rei de Ejigbo (Ejibô). Uma de suas maiores características era o gosto, descontrolado que tinha por comer inhame pilado, chamado de Iyàn, o que lhe valeu o apelido de “Orixá comedor de inhame” ou “Òrìsà jê iyàn” = Òságiyàn. Oxaguiã comia inhame de dia e de noite, e para isso, inventou uma vasilha onde amassava o inhame, à qual chamou de pilão.

Curiosidades

Animais associados a Oxalá:
Igbìn – O caramujo simboliza a fecundidade e a continuidade.
Pomba – Está associada à criação do Universo

Uma Lenda Sobre a Criação do Mundo

Quando “Olorun” decidiu criar a terra, chamou “Obatala” (O Rei do Pano Branco), entregou-lhe o “Apo iwa” (bolsa da existência) e deu-lhe as instruções necessárias para a realização da magna tarefa... E mandou que ele fosse criar o mundo. “Obatala” então chamou os outros “orisa” para irem com ele. “Oduduwa” disse que antes de viajar tinha que dar uma obrigação. Todos os “orisa” partiram e “Oduduwa” ficou. No caminho, “Obatala” encontrou “Esu”, este, o grande controlador e transportador de sacrifícios que domina os caminhos. “Esu” lembrou que “Obatala” tinha esquecido de dar obrigações antes de viajar. “Obatala” não ligou e seguiu viagem... E foi assim que “Esu” sentenciou que nada do que ele se propunha a fazer, seria realizado. Mais adiante, “Obatala” sentiu sede mas não parou... Passou por um rio, mas não parou. Passou por uma aldeia onde lhe ofereceram leite, mas ele não aceitou. A sede foi ficando insuportável. De repente “Obatala” viu “igi ope”. Sem conseguir se conter diante da sede, abriu o tronco da palmeira com seu “opa soro” (cajado). E bebeu o vinho da palma... até desmaiar. Enquanto isso, “Oduduwa” foi consultar “Ifa”. E fez sua obrigações, conforme o jogo do “Babalawo”.
Levou para o “Babalawo” cinco galinhas, das que têm cinco dedos em cada pé, cinco pombos, um camaleão, dois mil elos de corrente e todos os elementos que acompanham o sacrifício. Seu “Babalawo” apanhou estes últimos e uma pena da cabeça de cada ave e devolveu a “Oduduwa” as correntes, as aves e o camaleão vivos.
A última coisa que “Oduduwa” tinha que fazer era levar uma oferenda a “Olorun”. Quando “Olorun” viu “Oduduwa” ficou zangado, dizendo que tinha dado ordens para que todos os “orisa” acompanhassem “Obatala”. “Oduduwa” explicou que estava seguindo ordens de “Ifa”. “Olorun” então aceitou a oferenda. Neste momento “Olorun” lembrou que tinha esquecido de colocar no “Apo Iwa” (bolsa da existência) um pequeno saco contendo terra, um dos ingredientes necessários para a criação do mundo. Pediu então a “Oduduwa” que levasse o saco e entregasse a “Obatala”. “Oduduwa” viajou... E, encontrou “Obatala” ainda desmaiado, na beira do caminho, com os outros “orisa” à sua volta sem saber o que fazer. “Oduduwa” tentou acordar “Obatala” mas não conseguiu. “Oduduwa”, então, pegou o saco de terra de volta para “Olorun”. “Olorun” ouviu toda a história e.... decidiu entregar o saco a “Oduduwa”, com terra, num saco ou concha de igbin (caracol) uma galinha e um dendezeiro (palmeira) . “Oduduwa” pegou o saco, foi até o lugar determinado por “Olorun” e criou a terra. “Oduduwa” lançou a terra sobre a água, e nela colocou a palmeira e enviou “Eyele”, a pomba, para esparramá-la. “Eyele” trabalhou muito tempo. Para apressar a tarefa, “Oduduwa” enviou as cinco galinhas de cinco dedos em cada pé. Estas removeram e espalharam a terra imediatamente em todas as direções, à direita, à esquerda e ao centro, a perder de vista. Elas continuaram durante algum tempo. “Oduduwa” quis saber se a terra estava firme. Enviou o camaleão que, com muita precaução, colocou primeiro uma pata, tateando, apoiando-se sobre esta pata, colocando a outra e assim sucessivamente, até que sentiu a terra firme sob suas patas.

“Ole”? “Kole”?
Ela está firme? Ela não está firme?

Quando o camaleão pisou por todos os lados, “Oduduwa” tentou por sua vez. “Oduduwa” foi o primeiro orisa a pisar na terra.

Neste meio tempo “Obatala” acordou e vendo-se só sem o “apo iwa”, retornou a “Olorun”, lamentando-se de ter sido despojado do “apo”.
“Olorun” tentou apaziguá-lo e, em compensação, transmitiu-lhe o saber profundo e o poder que lhe permitia criar todos os tipos de seres que iriam povoar a terra.

Texto adaptado por Adomair O Ogunbiyi

Fontes: . Os nago e a morte – Juana E. dos Santos
. Odo Ya ! - ISER
. Orixás – P.F. Veger
. Agô Agô lonan – M. de Lourdes Siqueira
. Yoruba: Tradição Oral e História – OlumuyiwaAnthony Adekoya
. A Enxada e a Lança – Alberto da Costa e Silva

Muitos são os mistérios que rodeiam ambos os Orixás apresentados. Quando estudamos as qualidades/títulos de Oxalá, nos deparamos com Orixás à parte, que, devido ao período da escravidão, foram adicionados e ditos como títulos associados a Oxalá. Assim como Ayrá, que é uma divindade a parte é cultuada como qualidade de Xangô, também ocorre com Oxalá e outros Orixás no Brasil, que veremos nas próximas postagens. Aguardem!
Samir Castro

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