A Vida e a Morte


Conceito de Ikù ( Ikú - Morte)

 Dentro da nossa cultura, acreditamos em vida após a morte, que é chamada de Ìye Lèbin Ikù. Acreditamos no Julgamento Divino chamado de Idájo ti Olórùn e cremos na encarnação, o possível retorno à vida chamado de Àtúnwà.  Existem diversas lendas que tratam da criação da humanidade. Em algumas delas, são relatados como Ìyálorì e Bàbálorì (Pai e Mãe de todas as cabeças) os Orixás Oxalá e Iemanjá, assim como, em algumas lendas, encontramos relatos dessa responsabilidade dados a Oxalá e Odudua. O que é comum entre essas lendas é que, quem nos dá o Emì, o sopro Divino, quem dá vida ao corpo (Arà), ao novo ser, a vida, o espírito em si, é Olórùn (Deus).
Dentro desse contexto temos Ikù, a morte, que nada mais é do que um agente divino criado por Olórùn, para executar a transição daquelas pessoas cujo tempo de estadia neste plano material tenha terminado. A morte é uma Divindade Masculina. Sim, isso mesmo. Muitos estudiosos afirmam que a morte é realmente um Orixá e, como dito acima, é o responsável por buscar, caminhar e desprender o espírito do corpo físico.
Ikù ki panì, ayò l´o npa ni – a morte não mata, os excessos que matam.

Arùn I’a wò, a Ki Wo Ikù – A doença pode ser curada, a morte não pode ser remediada.

Lenda de Ikù

Conta a lenda que Olodumare, ao decidir criar o ser humano, designou essa incumbência a Oxalá, que teve a necessidade de obter o material adequado para aquele propósito. Pensou e achou que o melhor material para moldar os seres humanos seria amòn (o barro) formado pela mistura de terra e água. Então, Oxalá que fora incumbido daquela tarefa por Olodumare, ordenou a Èsù (Exú), o mensageiro, que fosse buscar um pouco de lama para que Ele pudesse executar sua tarefa.
Como era corrente e sabido por todos, não havia nada que Èsù não pudesse realizar, e a tarefa parecia super fácil para ele. Mas, ao chegar ao local, quando Èsù meteu a mão na lama arrancando-a, Aìyé (a Terra) chorou, porque estavam arrancando parte dela e ela sentia muita dor com aquilo. Embora Èsù tivesse fama de mau e implacável, ficou mortificado de pena de Aìyé e deixou a lama para lá. Regressou a Oxalá e relatou o acontecido.
Oxalá então chamou Ogum, este sim, guerreiro intrépido e destemido que em batalhas matava o inimigo até mesmo brincando, resolveria aquele pequeno problema. E lá se foi Ogum. Em lá chegando, quando retirou a lama para colocar em sua làbà (bolsa capanga), Aìyé caiu em prantos lamentando-se. Ogum também ficou penalizado. Ora, Aìyé não lhe fizera nada de mau e ele não estava zangado. Assim sendo, não tinha ímpeto suficiente para ferí-la. E também voltou a Oxalá para explicar o seu fracasso em cumprir a missão.
Dessa forma, um a um dos Orixás que foram incumbidos por Oxalá para aquela mesma missão, voltava com a mesma desculpa: ninguém foi capaz de tirar a lama de Aìyé, cada qual com suas qualidades que o recomendava, com a certeza do cumprimento da tarefa, mas, tudo em vão.
Foi aí que Oxalá chamou Ikú, deu-lhe a àpò (bolsa) e mandou-o para executar a tarefa que todos os demais Ìmolè tinham fracassado em cumprir. Então, Ikú ao chegar na Terra, começou a retirar a lama de Aìyé, e ela chorou, mas, Ikú não se importou com seu pranto e pegou toda a lama de que precisava, retornando a Oxalá com sua missão cumprida.
Após moldar os seres humanos, Oxalá plantou uma árvore para cada um, para que lhe suprisse o oxigênio e desse continuidade à respiração, iniciada pelo sopro divino de Olodumare pois, Olodumare, o Criador Supremo, insuflou seu hálito (Emì) para dar vida e mobilidade aos seres humanos. E disse a Ikú que, como fora ele quem retirara o material necessário para moldar os seres humanos, em qualquer época que se fizesse necessário, ele estaria também incumbido de levá-lo de volta para recolocar em seu lugar de origem, após a utilização daquele material. Por isso é que, quando chega a época da devolução daquela porção do material primordial, Ikú é quem vem buscar a pessoa para recolocá-la em seu lugar original.
Visto assim, do ponto de vista das lendas Yorùbá, Ikú (a Morte) não é aquela coisa tenebrosa que nos incutiram desde a mais tenra idade. Ikú, para os Yorùbá tradicionais é, ao mesmo tempo, o fornecedor primordial e o restaurador da matéria retirada e fornecida por Ele próprio, sendo Ele, assim, o princípio e fim, o princípio e o fim, o princípio e o fim..., e assim sucessivamente, num eterno círculo, onde não há início nem final, que está sempre recomeçando.

A importância do Orì – O Espírito e a Vida

Como sempre digo, apesar de todo acesso que temos nos dias atuais referente à nossa cultura, à nossa tradição, e o que é feito em termos de África, existem algumas questões ainda contraditórias. Somente a fé e o amor ao Orixá e a definição que cada um de nós criamos em nossas mentes, podem determinar tais verdades, por isso há diferenças de casa para casa e de zelador para zelador.
Muitos consideram Oxalá o modelador do corpo e Ajalà, o olheiro divino, o responsável por modelar todas as cabeças; porém, alguns estudiosos consideram Ajalà uma qualidade/título de Oxalá. O ponto em comum nessas visões, é que, nas lendas destas divindades, ambos pediram ajuda a Orunmilà para que cada espírito possuísse o seu caminho, ou seja, o seu destino (Odú). Dentro da formação do Orì estão contidas todas as interdições, permissões, missões e provações que uma pessoa deverá passar em sua estadia na Terra.

O Texto a seguir explica bem o que vem a ser Orì:

“Ko sí Òòsà tí i dá´ni gbè léhìn Orì eni”
“Nenhum Orixá abençoa uma pessoa antes de seu Orí”
Este oriki (verso sagrado) não deixa dúvida sobre a suprema importância desta divindade pessoal, inclusive, acima dos outros Orixás! Orí, porém, continua sendo um enigma no conhecimento popular do culto. Traduzindo da Língua Iorubana, Orí significa cabeça, entretanto quando se busca aprofundar algo mais, os devotos hesitam, titubeiam, emudecem… Se Orí é a mais importante de todas as divindades, porque o desconhecimento? Principalmente de uma divindade que reside justamente dentro de nós? Porque, de todos os Orixás, Orí é o mais misterioso? Para responder estas questões, temos que voltar às origens do nosso culto, na África. No continente africano, o culto, assim como no Candomblé, é iniciático e hermético. Portanto, os segredos, fundamentos e a sabedoria do culto estão para apenas ser desvelado por seus iniciados ao decorrer de sua carreira religiosa e/ou sacerdotal. Dessa forma, os segredos mais profundos e sérios do culto ficavam restritos aos mais altos sacerdotes, permitindo ao público e aos mais novos iniciados, apenas pequenas centelhas dessa sabedoria. Para se atingir os mais profundos conhecimentos e sabedoria eram necessários muitos anos de profunda dedicação e disponibilidade de transcender sempre os próprios limites. Contudo, atualmente, vive-se na cultura das árvores impacientes que se dedicam a crescer tão apressadamente, em detrimento do aprofundamento de suas raízes, e assim, os profundos conhecimentos foram ficando restritos a um número cada vez menor de sacerdotes. Isto explica o desconhecimento geral deste supremo Orixá, que é o ponto central do culto afro e afro-brasileiro! Dele depende a nossa existência, nosso sucesso, fracasso, saúde, doença, riqueza, pobreza, plenitude, felicidade. Sem a aprovação de Orí nenhum Orixá pode fazer nada pelo seu devoto. Por isso, para nós, Orí é o Orixá mais importante! É o único que nos acompanha na viagem dos mares sem retorno, como descrito no Itan de Ògúndá Méjì.

VOLTANDO ÀS ORIGENS

No princípio dos tempos da Criação, Oduduwa havia criado a Terra. Oxalá havia criado o homem, seus braços, pernas, seu corpo. Olórúm lhe insuflou o èmí (respiração divina), a vida. Mas Oxalá havia se esquecido da cabeça. Oxalá não fez a cabeça do homem… Então, Olórúm pediu a Àjàlà (o olheiro divino) para confeccioná-la. Àjàlà, quando foi confeccionar Orí, pediu a ajuda de Odú, e assim todos os Odús ajudaram Àjàlà a confeccionar Orí. E assim nasceu Orí. Orí é composto da matéria divina dos Odús, misturados em quantidade, e organizados segundo a sabedoria de Àjàlà a pedido de Olórúm. Do material (òkè ìpònrí) que Àjàlà utiliza para confeccionar Orí, se constitui èwò (tabu) para quem possuir esse Orí. E assim se determina as interdições alimentares dos indivíduos, pois, comer do próprio material de que foi constituído, caracteriza ofensa séria à matriz da qual foi criado.
Todo homem quando vai para o Aiyé, invariavelmente, deve passar na oficina de Àjàlà e escolher o seu Orí. Esta escolha denomina-se Kàdárà, oportunidade e circunstância, e ao fazê-la, está determinando sua natureza e destino. Este momento ocorre da seguinte forma: a alma se ajoelha (posiçao fetal) diante dos pés de Olórúm (o Criador) e então lhe faz um pedido, – Àkùnlé yàn – pedido esse, que estará relacionando ao seu desejo de crescimento moral e espiritual. Então Olórúm lhe fixa o destino – Àyàn mó Ipín - que Orí deverá seguir, em que geralmente atende aos desejos do próprio Olórúm e às necessidades das restituições que Orí deve cumprir. E então recebe – Àkùn légbà – as circunstâncias que possibilitarão os acontecimentos, geralmente ligado às questões de tempo/espaço, meio e todo o entorno necessário ao melhor cumprimento do destino. Neste momento a alma recebe os seus èwós (tabus), interdições alimentares, de vestuário, de ação, etc. Firma compromisso com o seu ancestral e tutor espiritual (Orixá). Firma compromisso com o Bàbá Egún (Pai espírito) responsável pelo ìpònrí ancestral terreno que formou o seu corpo material, e que zela pelo desenvolvimento da família a que Orí fará parte. Todos os contratos são firmados e/ou reafirmados diante de Olórúm e de Orúnmilá, e, à medida que o são, o destino se lhe vai fixando. Então Orí se dirige a Àkàsò (a fronteira entre Orúm-plano espiritual, e Aiyé-plano físico) e pede passagem à Oníbodè (o porteiro), que o interrogará sobre o que fará no Aiyé, Orí lhe contará, e mais uma vez se fixará nele o seu destino.


ORÍ – A FISIOLOGIA DIVINA

Orí então descerá e ocupará o seu lugar no Orí do corpo criado, através da chamada “moleira”, abertura no crânio do bebê, que irá se fechando conforme se desenvolve ao longo dos anos, onde se dá a “armadilha para Orí”: uma vez encerrado lá, Orí somente voltará a se libertar do corpo, na última expiração, pela boca. A princípio, Orí assentar-se-á no cérebro (Opolo) daquele corpo, onde comandará Orí Òde (cabeça externa).

ORÍ ÒDÉ

A cabeça externa caracteriza-se pela cabeça física (crânio, cérebro,
sistema nervoso central, olhos, ouvidos, etc) e também pela personalidade e intelecto que resultará da interação daquele corpo com Orí Innú (cabeça interna), a cultura local onde se desenvolverá o indivíduo, e o aprendizado que receberá desde o seu nascimento. Ou seja, Orí Òde é, além da cabeça física, a nossa pessoa como nós a conhecemos e como os outros a conhecem. É o mecanismo criado por Orí Innú para lidar com o mundo exterior. Orí Òde é o nosso “eu exterior”.

ORÍ INNÚ

A cabeça interna, é a nossa personalidade divina, ou, nosso “eu verdadeiro”, ou, nosso “eu supremo ou superior”. Em resumo, nossa alma. Abaixo de Orí Innú reside Elénìnìí (o opositor de Orí), no cerebelo (ipakó), responsável pelo esquecimento de Orí da sua missão, aquele que o vem atrapalhar a realizar e cumprir sua missão para com Olórúm e a Criação, conforme descrito no Itan do Odú Irosún Méjì. Este, constitui o último nó para a transcendência de Orí Innú, e o cumprimento de sua missão original. Ainda existe Ipín Jeun (o estômago), e Obo Ati Oko (os órgãos sexuais), que são os outros nós que Orí Innú deve superar: medo, desejo, ambição, vaidade, ciúme, ira, egoísmo, etc…

ORÍN INNÚ AINDA SE DIVIDE EM:

1- Orí Aperé - o caminho predestinado, fenômeno narrado acima. O destino do indivíduo vem escrito em sua cabeça... “sua cabeça, sua sentença!”

2- Aparí Innú - o caráter (Iwà), a personalidade divina. Que é a essência de Orí Innú, a alma, e sua missão original. É através do desenvolvimento de Ìwà Pèlé (caráter reto, honesto, puro, bom) que Orí chegará à sua transcendência última! Enfim, como descreve o Odú Ogbè-Ègùndá: “Ìwà nikàn l´ó sòro o”... “Caráter é tudo o que se precisa”.
Ìwà Pèlé (caráter reto) é o que conduzirá Orí Innú até o Òrun Rere (plano espiritual dos Orixás), em caráter definitivo.
Assim, sabemos que, nossa divindade pessoal é Orí Innú (cabeça interna-alma), responsável pelo nosso destino e felicidade. Que o nosso Orixá (orí-o primeiro) é o tutor espiritual de nosso Orí Innú, mas que só poderá ajudar-nos se Orí o permitir. Que em nosso Orí Innú reside o nosso Odú (destino) e somente através de Orí e Odú podemos transmutar o nosso destino, e assegurar o cumprimento da missão confiada por Olodumaré. Que devemos nos resguardar de Elénìnìí, o inimigo de nossa missão e alma, aquele que pode nos trazer sofrimentos. E que nossa verdadeira essência, que devemos buscar, reside em Orí Innú (cabeça interna-alma) e não em nosso Orí Òde (cabeça externa-personalidade) que é tão somente o veículo de Orí Innú aqui no Aiyé. E, o mais importante: a missão maior de Orí Innú, à qual cabe ao nosso Orixá ajudar-nos, é o desenvolvimento de Ìwà Pèlé (caráter reto, bom), nosso passaporte para o encontro definitivo com Olórun!!
Orí o!!
Ire o!

(fonte) ACAD - ASSOCIAÇÃO CULTURAL AFRO DESCENDENTE-BABALORISA PAULO ROBERTO
Ler mais: http://mundodasmagias.webnode.com.br/orixas/ori/
Leia mais: http://www.revistasextosentido.net/news/ori-o-orixa-mais-importante/


A Kúnlé A Yam Èdá
Um bronzeado Daye A Dáyé Tán
Oju Níkán Ni Ojú Níkán Ni
Nós escolhemos nossos caminhos sobre a supervisão de nossos antepassados, somos vigiados, pois, quando chegamos à Terra somos impacientes
Ení t'o gbón
Orí è l'ó ó ní gbón Orí è l'ó ní ó gbón
Èèyán tí ò gbón Èèyán tí ò gbón
Orii ré l'ó ní o Vá 'j'usu lo. Oríí ré l'ó ní ó gò 'j'usu lo.
Aquele que é sábio
É o Senhor da Magia da Cabeça, pois a compreende.
Aquele que não é sábio
Não passa de um tolo com uma cabeça feita de inhames.

Espaços no Céu – Planos Espirituais

1 – Òrún Akaso -  É o local onde os espíritos aguardam antes de reencarnarem ou virem pela primeira vez à Terra. Neste caso, eles são acompanhados de seu Barà – o Èsù Pessoal, Òsùn (Oxum) e os Orixás regentes, além do seu Odù (destino).
2 – Òrún Ìsàlú/Asálù – É o local onde os espíritos são julgados e encaminhados para um dos espaços do Òrún.
3 – Òrún Aféfé – Local destinado a reparação de erros, é considerado um local de aprendizagem e, neste local, possuem a oportunidade de serem encaminhados ao Akaso.
4 – Òrún Búrúkù – É o local onde pessoas que cometeram erros possuem a oportunidade de repará-los e retornarem ao Akaso.
5 – Òrún Àpáàdi – É  o local onde os espíritos que cometeram erros irreparáveis, permanecem por toda eternidade. Sem a chance de retornarem.
6 – Òrún Rere – Local onde habitam pessoas que realizaram coisas boas e parte de sua missão durante a sua estadia na Terra. Aqui as pessoas retornam para concluírem o que lhes foi predestinado.
7 – Òrún Aláàfia – Este é o local de satisfação celestial. É onde habitam os espíritos que cumpriram toda sua missão na Terra e não necessitam mais de reencarnação.
8 – Òrún Orà – É o local onde habitam todos os Orixás, e onde habitam todos os espíritos que manifestam.  E neste local são formados os novos espíritos que virão à Terra pela primeira vez. Aqui habitam, além dos Orixás, Orunmila e todas as Divindades do nosso culto.
9 – Òrún Bàbá Eni – é a morada de Deus.
Podemos concluir que, acreditamos na vida após a morte, em reencarnações, acreditamos em destino, acreditamos em missão a ser cumprida e acreditamos, piamente, na vida após a morte e na consequência de nossos atos.

Referência:
Òrún Àiyé – O Encontro de dois mundos – José Beniste

Samir Castro

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