Xangô - Parte 1

Xangô é o Orixá não somente associado à justiça, mas sim a vitórias, a vitórias perante os desafios. Xangô representa a superação, a determinação, a garra e a vitória de forma justa. O poder, a soberania, o respeito à hierarquia, a sabedoria e a justiça são elementos importantíssimos associados a este Orixá. Conta uma lenda que Xangô destronou Dadá-Ajaká por considerá-lo muito calmo e por não realizar um bom governo. Xangô então apoiado pelo povo de Oyó destrona Dadá-Ajaká tornando-se o quarto Alafin de Oyó.
Oranian era Pai de Xangô e fundador de Oyó; por esse motivo o reinado já pertencia a Xangô por direito, porém, como foi dito acima, a discordância perante as atitudes  e a condução do Reino de Oyó por parte de Dadá-Ajaká fez com que Xangô o destronasse antecipando assim a sucessão real.
Xangô foi um grande homem, um analítico, avaliando de forma minuciosa todos os interesses de seu reino, tendo assim aceitação e credibilidade perante seus súditos, tomando sempre as melhores decisões, sendo um grande senhor no comando de todo o reino e sendo um grande repressor dos maus costumes, um grande pregador da Justiça.
Suas decisões, por mais impostas que fossem, eram sempre Justas e traziam benefícios concretos para o seu reinado, isso fez com que fosse idolatrado, amado acima de tudo.
Xangô é a aplicação do poder de forma justa e organizada; é o representante da autoridade aplicada em forma de benefício do coletivo, é a organização, é o sentido organizacional contido em cada ser.
O Raio que ilumina os caminhos e castiga os inimigos; o fogo que purifica e pune aqueles que não honram seu nome, seu reino e a justiça.
Como todo rei, era dotado de beleza e vaidade sem igual, um grande conquistador, galanteador, tanto que teve como esposas Oyá, Oxum e Obá.
Como sabemos existem diversas Lendas e formas das mesmas serem contadas. Muitas vezes alguns detalhes são modificados, porém o real sentido contido em cada lenda ou forma de como é transmitida, possui um valor comum, como podemos ver na lenda a seguir:
Historicamente falando, vemos que a própria história de Xangô e de seus descendentes, confundem-se com a formação da cultura Yoruba. Odudua, bisavô de Xangô foi um grande guerreiro e fundador da cidade sagrada de Ilê-Ifé. Oduduá teria se casado com Olokun e tiveram três filhos.
O mais velho chamava-se Ogun, e a exemplo do pai tornou-se um grande guerreiro. Seu segundo filho era uma mulher, chamava-se Isedale, e o terceiro chamava-se Okamby.
Okamby teve sete filhos. Entre eles o que mais se destacou foi Oranian, um grande conquistador e fundador da cidade de Oyó. Oranian casou-se com a filha do rei Elepé da cidade de Tapá, em território Nupe, cujo nome era Torosi, também conhecida como Yamasemale.
Com Iya Torosi, Oranian teve dois filhos. Um chamava-se Dadá-Ajaká e o outro chamava-se Olufiran, vindo a ser conhecido mais tarde como Xangô. Xangô tinha um temperamento forte e era muito violento, sendo mais tarde um grande conquistador.
Quando fundou a cidade de Oyó, Oranian prestou uma homenagem ao seu falecido pai Okamby, conferindo-lhe o titulo de Primeiro Rei de Oyó, conservando para si a posição de segundo rei da cidade, bem como o titulo de Senhor do Palácio Real da cidade de Ilê-Ifé.
Certa vez, Oranian saiu para uma de suas expedições e não mais retornou, não dando qualquer notícia sobre seu paradeiro. Ficou decidido que Dadá Ajaká assumiria definitivamente o trono e assim passou a ser o terceiro rei de Oyó, retirando do palácio real, a bandeira de Oranian.
Passado muito tempo, Oranian retornou ao seu reino e, ao tomar conhecimento de que sua bandeira não mais tremulava no palácio real e que Dadá-Ajaká assumira o trono, resolver ir para a cidade de Ilê-Ifé e lá se instalou, para não causar constrangimentos ao filho.
Conta-se que Dadá-Ajaká reinava de forma pacífica e ordeira, cabendo a seu irmão Olufiran (Xangô) o controle sobre todos os exércitos e territórios conquistados. Xangô comandava bravamente seus exércitos e expandiu o reino do irmão consideravelmente.
Com tanto poder em suas mãos, Xangô decidiu destronar seu irmão Dadá-Ajaká e passou a ser o soberano em todo o reino de Oyó. Sob seu comando, o reino se consolidou, bem como a sua dinastia.
Conta uma outra lenda que Xangô era filho de Oranian, um valoroso guerreiro, que era metade preto à direita e metade branco à esquerda. Oranian era o fundador do reino de Oyó, em terra Yorubá. Durante suas guerras, passava sempre por Nupê, em território onde o soberano era o rei chamado Elempê, que fez uma aliança com Oranian, e, dando-lhe sua filha em casamento, a jovem Torosi. Dessa união nasceu o vigoroso e forte Xangô.
Durante sua infância em Tapa, Xangô só pensava em encrenca. Encolerizava-se facilmente, era impaciente, adorava dar ordens e não tolerava reclamações. Só gostava de brincar de guerra e de briga. Comandava os amigos da cidade e juntos, roubavam os frutos das árvores. Crescido, seu caráter valente o levou a partir em busca de aventuras gloriosas.
Xangô tinha um machado de duas lâminas. Tinha também, um saco de couro que carregava pendurado no ombro esquerdo. Nesse saco encontravam-se os elementos que lhe davam poder, como o que engolia para cuspir fogo, e , suas pedras de raio, que utilizava para destruir as casas dos inimigos.
O primeiro local conquistado por Xangô foi a cidade de Kosô, impondo a sua fúria e seu poder ao povoado, tornando-se o rei do local. O povo de Kosô veio pedir-lhe clemência, gritando “Kabiyesi Sango, Kawo Kabiyesi Oba Koso” ( Xango Majestade seja bem vindo, Rei de Kosô). Envaidecido com a louvação, Xangô resolveu poupar o que restava do local e lá fazer sua morada, ordenando que lhe fosse construído um palácio.

A relação de Xangô com Oyá:
Xangô conquistou várias cidades e vilas por onde passou com seus exércitos. Certa vez, ao conquistar a cidade de Kosô e tornar-se rei do local, pôs-se a ajudar seu mais novo domínio, vindo a residir em um palácio construído por sua ordem. Devido à violência empregada ao conquistar a cidade, o povo o temia e não confiava no novo rei.
Xangô tomava todas as decisões com calma e cuidava das coisas com justiça e dignidade, sempre procurando ajudar aos moradores. Mas, seu espírito aventureiro e conquistador, fez com que partisse da cidade para novas conquistas. Em uma dessas viagens chegou até a cidade de Irê, onde morava o terrível guerreiro Ogum, poderoso e hábil ferreiro.
Ele era casado com Oyá, a bela senhora dos ventos e das tempestades que o ajudava em suas atividades, acompanhando-o todas as manhãs até sua forja, carregando todas as suas ferramentas. Era ela que acionava os sopradores para atiçar o fogo.
Xangô gostava de sentar-se ao lado da forja para ver Ogum trabalhar. Vez ou outra Xangô olhava para Oyá e ficava admirando sua beleza. Ela, por sua vez, também olhava para Xangô, chegando a cruzar os olhares.
Xangô era vaidoso e estava sempre preocupado em cuidar de sua aparência. Tinha seus cabelos trançados, usava argolas nas orelhas, braceletes e belos colares de contas vermelhas e brancas.
Sua elegância despertou o interesse de Oyá, que ficou profundamente apaixonada por ele e, no dia de sua partida, Xangô avisou Oyá que estava deixando o local e a convidou para fugir com ele. Oyá aceitou e seguiu para Kosô com Xangô, abandonando Ogum.

Xangô e Oxum:
Xangô não era apenas um grande conquistador de cidades e povoados. Suas conquistas também ocorriam no campo amoroso, onde, igualmente, obtinha muito sucesso.
Certo dia, ao retornar de mais uma expedição de conquistas, Xangô e sua comitiva pararam na cidade de Ilê-Ifé para descansar e alimentar seus cavalos, quando avistou uma bela jovem, acompanhando um homem velho que andava vagarosamente.
Xangô aproximou-se dos dois e reconheceu o ancião, seu grande amigo Oxalufã (Oxalá), amparado por sua filha mais nova, Oxum. Desceu então de seu cavalo e foi apresentar saudações a Oxalufã, a quem muito respeitava.
Assim feito, Oxalufã o convidou a ficar por mais alguns dias na cidade, para descansar de tão longa jornada. Xangô que já se interessara pela jovem, resolveu aceitar o convite instalando-se com seus guerreiros. A todo momento Xangô cercava Oxum e a pedia em casamento, prometendo-lhe que, se aceitasse, seria a preferida entre suas esposas.
Oxum se esquivava com delicadeza dizendo caber-lhe os cuidados ao pai, sendo impossível abandoná-lo, pois ele não queria deixar o local. Xangô alucinado com os encantos de Oxum, estava disposto a fazer qualquer coisa para levá-la consigo. Oxum, relutante, mantinha sua posição anterior.
No dia da partida de Xangô para sua cidade, ela resolveu aceitar o pedido, mediante uma condição: o soberano de Kosô teria que carregar no pescoço até o final de seus dias, o velho Oxalufã, em troca de casar-se com ela. A proposta foi aceita prontamente e Xangô adiou a sua partida, marcando para o dia seguinte as festividades do casamento.
Após consolidado o matrimônio, Oxum pediu para Xangô cumprir sua parte do acordo, carregando no pescoço o velho Oxalufã. Xangô muito esperto e inteligente, disse à moça que já o estava fazendo desde o casamento, e mostrou-lhe um colar que levava no pescoço, cujas contas alternavam-se em marrom, sua cor predileta, e branca, representando respeitosamente a cor de Oxalufã.
Oxum ficou enfurecida por ter sido enganada, reclamando a seu pai, que lhe disse nada poder fazer, pois, de certa forma, Xangô o estava carregando no pescoço, tendo assim, cumprido sua parte. Oxum acatou a palavra do pai e seguiu com o marido para o seu reino.

Xangô e Obá
Obá era uma das três esposas de Xangô, que por sua vez, dividia igualmente suas atenções entre as mulheres. Oyá o acompanhava sempre em suas batalhas, enquanto Oxum e Obá cuidavam dos filhos e dos afazeres do lar. Não demorou até se criar um rivalidade muito grande entre Obá e Oxum, cada uma querendo merecer maior atenção do marido, quando este se encontrava em casa.
Xangô era guloso demais e ficava muito contende quanto Oxum lhe preparava seus pratos prediletos. Sabendo disso, Obá sempre procurava observar Oxum a preparar tais pratos, com o objetivo de fazê-los da mesma forma, na sua vez de cozinhar para Xangô. Tal disputa já durava algum tempo. Durante uma semana, Oxum preparava os pratos do marido, que se deliciava. Na outra semana, Obá preparava os mesmos pratos que vira Oxum fazer, satisfazendo a gula do marido.
Certo dia, percebendo que Obá a observava, Oxum resolveu enganá-la. Amarrou um grande lenço em sua cabeça, cobrindo-lhe as orelhas e, sem que Obá visse, colocou dois grandes cogumelos na comida dizendo ter cortado suas orelhas, pois este era um dos pratos prediletos de Xangô. Após terminar a refeição, Xangô elogiou muito o prato feito por Oxum, tomando-a em seus braços e levando-a para os seus aposentos.
Em sua semana de cozinhar para o marido, Obá tratou logo de preparar a mesma refeição feita por Oxum, que tanto agradara Xangô. Quando estava quase pronta, Obá cortou uma de suas orelhas e a colocou no ensopado, servindo ao marido.
Ao ver que a orelha de Obá boiava sobre a comida, Xangô ficou profundamente enjoado e furioso, atirando o prato longe. Obá percebeu a trapaça de Oxum e partiu para atacá-la. Nesse momento Xangô mostrou toda a sua fúria e pôs-se a perseguir as duas mulheres, que fugiram aterrorizadas, transformando-se em rios, que receberam seus nomes.

DIA: Quarta-Feira
CORES: Vermelho (ou marrom) e branco
SÍMBOLOS: Oxés (machados duplos), Edún-Àrá, Xerê
ELEMENTOS: Fogo (grandes chamas, raios), formações rochosas.
SAUDAÇÃO: Ká wòóo ka biyè si!- podemos olhar vossa majestade?
Kawò kabiyèsílé! – Venha ver o Rei descer sobre a Terra ou Salve a Vossa Majestade

Continua...
Samir Castro

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