Erê - Criança - Ibeji



Ao contrário do que ocorre em termos de África, onde o Orixá pode se comunicar, falar normalmente, dentro do nosso Culto, em termos do que é feito no Brasil, o Orixá não fala quando está manifestado em seus iniciados. Em algumas casas o Orixá pode vir falando, caso o iniciado possua uma certa idade de santo, e em outros lugares jamais. O fato do Orixá não falar no Brasil tem uma relação intima e particular com o período da escravidão, onde o silêncio ritualístico e a proteção de culto faziam-se necessários para evitar assim conflitos com os senhores, tornando-se depois, uma particularidade ritualística. Vou citar algumas definições que já ouvi sobre a manifestação de Erê, sem defender ou criticar qualquer tese. O intuito do texto a seguir é pegar diversos pontos, diversos pensamentos e analisarmos as semelhanças e as diferenças de cada tipo de energia e de ritualística.
Alguns historiadores dizem que a ação do pós-transe, ou seja, o que ocorre em seguida da manifestação corpórea, seria uma perda de sentidos, dando assim uma sensação de dormência, descontrole, sendo assim chamado de Erê.
Outros historiadores e uma grande massa Candomblecistas defende que o Erê vêm a ser o intermediário do Orixá, é a criança interior, sendo manifestada após o ponto de incorporação e desincorporação do Orixá, ou seja, entre a inconsciência e a consciência.  Através do Erê, é manifestada a vontade do Orixá e é através do mesmo que o noviço é orientado e aprende alguns elementos básicos como danças e alguns ritos específicos de seu Orixá.
Em algumas casas, o Erê pode apresentar seu nome relacionado ao Orixá, em português mesmo, como por exemplo: Pratinha, Douradinho, Flecha Dourada, Odarinha, Ofasinho e outros. Em outras casas, o Erê pode se apresentar dando nomes em Yorúbà sem a mistura da língua portuguesa, o que é muito raro de se ver, mas existem ainda lugares com essa tradição.
Segundo alguns estudiosos, a palavra Eré (Erê) que significa “brincar/divertimento”, sendo esta palavra derivada de iré que significa “fazer uma boa ação”. Apesar da palavra Erê estar e ser relacionada ao transe de espíritos infantis, não podemos confundir com omodé, que significa criança em Yoruba.
Em algumas casas, o Erê, apesar de possuir comportamentos infantis, não possui em si esta classificação, podendo até mesmo fazer uso de fumo e bebida alcoólica. Em outros lugares é extremamente proibida essa prática. Em alguns lugares utiliza elementos que fazem alusão ao infantil, tais como chupetas, consumo de doces e frutas; e em outros lugares jamais farão isso, somente utilizando frutas. O único ponto em comum entre essas duas formas de culto, é que o Erê escolhe a sua fruta, que pode ou não estar relacionada ao Orixá ao qual corresponde.
Apesar de diversas definições, opiniões, visões e formas de culto que variam de casa para casa, o que todas possuem em comum é a definição de que, em muitas cerimônias e principalmente ao que se refere ao ritual de iniciação, o Erê é importante, pois é ele quem muitas vezes será o responsável de transmitir a mensagem, ou seja, o recado do Orixá, durante as ritualísticas.
Além desta visão comum, em algumas casas, o Erê, ao estar manifestado, pode exercer diversas outras funções, realizando assim o auxílio em preparações e execuções de algumas atividades internas. Em algumas casas pode ajudar, ao estar manifestado, até mesmo na arrumação da Casa de Axé para a festividade. Isso tudo varia de casa para casa e de zelador para zelador.
O fato de o Erê estar associado à criança fez com que o mesmo fosse relacionado, durante o período da escravidão, a Cosme e Damião. Não somente o Erê passou por associação como a Divindade Ibeji, o que veremos mais a frente neste texto.
Existem algumas ritualísticas que caíram no esquecimento ou foram retiradas de nossa cultura, principalmente no que se refere ao pós-iniciação,  que é o chamado Apana ou no popular Panã. Esta ritualística complexa é realizada em seguida do ritual do Oruko (nome do noviço), que é o reaprendizado do “profano”, ou seja, após um período longo de transe, o noviço, através da manifestação do Erê, reaprende determinadas funções, o que é chamado por alguns no popular de “quebra de kizilas”, o que permite ao noviço reassumir funções como, por exemplo: cozinhar, varrer, costurar, lavar, passar, sentar-se à mesa, etc., dando então o sinal ao noviço que, naquele exato momento, ele deve desprender-se da atividade ritualística, retomando assim a vida normal.
Um dos elementos motivacionais que fazem com que o Erê seja confundindo com Ibeji e Ibeji seja confundindo com Criança, é que durante a associação e a pratica do sincretismo religioso, como forma de manter vivo um culto, estas Divindades foram associadas a Cosme e Damião. Por este motivo é muito comum vermos o termo Ibeji sendo utilizando na Umbanda e inclusive o uso de termos abrasileirados como Ibejada.
Dentro dos Rituais de Umbanda a manifestação de espíritos com comportamentos infantis pode receber os nomes de Ibeji, Ibejada, Criança, Dois Dois e até mesmo encontramos o uso do termo Erê devido à mistura de culto.
As Crianças na Umbanda são entidades que possuem em sua manifestação um comportamento infantil, simbolizando a pureza e a inocência. Existem alguns atos em comum com a manifestação do Erê no culto do Candomblé de Kétu, ou seja, ambas manifestações se entregam a brincadeiras,  divertimentos e principalmente, a pregação de “peças” o que faz com que todos os envolvidos naquele ritual caiam em gargalhada e em alegria sem igual. A criança na Umbanda, além do trejeito e da fala semelhante a de uma criança, gostam de brinquedos e doces. Geralmente se apresentam com nomes comuns tais como: Pedrinho, Paulinho, Cosminho, Mariazinha, Marianinha e outros. Gostam de doces, balas, refrigerantes, guaraná e também podem comer frutas e até mesmo fazer misturas mirabolantes de balas, paçocas e tudo que for bem melado dentro de um copo cheio de guaraná, que somente uma pessoa bem orientada e muito bem manifestada poderia tomar. São esses detalhes, esses comportamentos que nos mantém fiéis e certos que a nossa Fé continua viva.
Dentro do Culto de Nação Kétu, Ibeji é o Orixá dos gêmeos, divindades gêmeas com comportamento infantil relacionada a todos os Orixás.
Ibeji possui o sentido de dualidade, de multiplicação, de interligação e interação de dois seres que se completam, além de estar associado à pureza, à inocência do ser infantil.
Segundo alguns estudiosos, seu culto nasce na Cidade de Isokun (terras que mais tarde foram fundidas ao terriório de Oyo). Alguns afirmam que este culto nasceu através do nascimento de filhos de gêmeos em esposas de reis.
Alguns estudiosos afirmam que os principais Orixás relacionados a Ibeji são: Oxum, Xango, Oyá, Oxossi, Oya, Logun Ede, Aje Saluga e Iemanjá.
Como não vamos nos aprofundar muito no assunto buscando um entendimento comum (pois é um assunto muito complexo que falaremos mais a frente em nosso Blog), podemos dizer, de uma forma básica apenas para conhecimento, é que Ibeji representa tudo que nasce, tudo que se inicia e por este motivo, assim como Èsù (Exú), deve ser muito bem tratado para que toda e qualquer ritualística ocorra em serenidade e em perfeita ordem.
Samir Castro

Comentários

  1. texto muito bom, muito esclarecedor. muito bem escrito. obrigado por compartilhar essa sabedoria.

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  2. Muito esclarecedor , principalmente para os iniciados,em outros tempos, aprendiamos na pratica com a vivência........

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    Respostas
    1. Boa Noite Elisa, primeiramente gostaria de agradecer seu comentário, porém quero deixar claro que nosso intuito não é ensinar ninguém apenas somar com o conhecimento que as pessoas possuem em suas casas, também é importante lembrar que o que se aprendia na prática continua se aprendendo na prática e na vivência...A diferença que em outras épocas se tinham apenas livros, eram caros, poucos tinham, hoje muitos possuem acesso a livros, a cursos, apostilas e a internet. Como dizia Cidália tudo que somar ao estudo, a cultura é bem vindo. Por isso sempre recomendo as pessoas que leiam sim nunca é de mais...façam uma peneira e apenas usem aquilo que fizer sentido e puder ser somado com o conhecimento de cada Casa de Axé.
      Obrigado

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