Èsù (Exú) Orixá


Existem diversas opiniões e definições sobre o Orixá Èsù (Exú). Diversas opiniões e visões se formaram com o passar dos anos sobre este Orixá. Infelizmente, confusões e conceitos um pouco inadequados tornaram-se verdade e são cultuados até os dias de hoje.
Dentro de uma linguagem simples sobre este Orixá, podemos dizer que Èsù (Exú) é confundido por alguns com as Entidades de Umbanda (Exús) ou Catiços, apenas pelo motivo de que este Orixá é o Senhor dos Caminhos, o primeiro a ser chamado antes de qualquer cerimônia.
Este Orixá é o mais humano de todos os Orixás. É o equilíbrio entre positivo e negativo. Sua semelhança com os seres humanos é maior do que a de qualquer outra divindade no Candomblé. Èsù, ao contrário do que lemos em alguns livros, é um ser brincalhão, mas ao mesmo tempo é dotado de grande responsabilidade. Ele é o senhor dos caminhos, é o auxiliar dos arà-àiyé (seres humanos), é ele quem nos ajuda a ter uma vida melhor, para que possamos alcançar nossos objetivos. É o responsável pela vigia dos Odú, que são os destinos que nos regem desde o nascimento, os caminhos que escolhemos seguir no Àiyé (Terra).
É o responsável por dar aquela apimentada no nosso dia-a-dia, as provações diárias, para ver se somos merecedores e capazes de concluir nossas missões. É Èsù quem responde ao jogo de Ifá e é de sua responsabilidade transmitir os pedidos feitos a todos os demais Orixás, motivo pelo qual, é o primeiro a ser agradado antes de qualquer cerimônia.
O dia destinado aos rituais de Èsù no Brasil é a primeira segunda-feira do mês. Em determinados lugares as suas festividades são realizadas nos meses de fevereiro e março, variando de casa para casa.
Os fios de contas deste Orixá são montados nas cores vermelha e preta, como também podem ser nas cores azul escuro com preto, ou também nas cores azul escuro com preto ou vermelho, só vermelho, preto, e a união de todas as cores existentes, simbolizando que Èsù pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, que ele é o conhecedor do mundo e de sua criação, ele conhece a tudo e a todos.
Os locais onde podem ser colocadas as oferendas destinadas a este Orixá são: a encruzilhada de quatro pontos, caminhos de terra, alto de morro e tantos outros lugares determinados pelo próprio Orixá, como também  dentro da casa de santo, no local destinado a Èsù.
Devemos nos lembrar que Èsù é representado pelo elemento Inà (fogo), por este motivo é chamado de Bará Inà ou Inà (Exú do Fogo). Isso significa que ele representa a renovação, a purificação. Èsù significa lutar pela vida, pela felicidade, sem desistir de nada, mesmo que as dificuldades sejam enormes.
Èsù nos ensina que devemos continuar a lutar e a escolher o melhor caminho para termos uma boa estadia no Àiyé (Terra).

Nomes ou Títulos de Èsù

Èsù Yangí – o Senhor da laterita vermelha. Foi o primeiro nome pelo qual Èsù foi chamado após ter sido criado, simboliza a ligação entre o Òrún e o Àiyé (Céu e Terra), é o simbolismo do poder controlador, gerador, é o ser constrói e destrói as mesmo tempo. É a construção e a reconstrução.
Èsù Igbá Kéta – o Senhor da terceira cabaça. Este nome está relacionado ao poder que Èsù possui em manipular objetos, mudar destinos, castigar, realizar pedidos e tantas outras funções.
Èsù Òkòtó – o Senhor do caracol. Este nome está ligado ao poder que Èsù transmite ao girar, formando assim uma espiral, que é capaz de emanar energia para todos os cantos do mundo. Considerado por alguns a representação do infinito.
Èsù Òdàrà – O Senhor da Felicidade. Este nome está ligado à capacidade que Èsù possui de ajudar a realizarmos um pouco do que desejamos para nossas vidas. A satisfação pessoal.
Èsù Òji Ebó – é o mensageiro divino. Responsável por transmitir e executar todos os pedidos.
Èsù Eleru – para alguns é o senhor do carrego ritual, porém vejo como o senhor da obrigação ritual, ou seja, simboliza a responsabilidade que Èsù possui em abrir cerimônias, sendo ele o protetor das ritualísticas impedindo a influência de qualquer negatividade que possa atrapalhar o ritual.
Èsù Enúgbàrijo – o Senhor da boca coletiva. Este nome representa todas as qualidades de Èsù, além de simbolizar que Èsù recebe as oferendas de todos os Orixás e sendo ele o mensageiro dos mesmos.
Èsù L´ònà – o Senhor dos caminhos. Significa que Èsù pode tanto abrir como fechar caminhos, nada acontece sem a vontade de Èsù.
Èsù Olobè – o Senhor da faca.
Èsù Orità – o Senhor das Encruzilhadas, simboliza os caminhos.
Èsù Elepó Pupa - o Senhor/Dono do Azeite de Dendê.
Èsù Akèsan – existem diversas definições sobre este nome. Uns consideram como aquele que se divide em nove, fazendo uma ligação com os 9 espaços no céu, mostrando que Èsù é o guardião dos mundos; outros dizem que é o Èsù do mercado, tendo como domínio o comércio, relacionado ao mercado de Oyo, que segundo alguns leva o nome de Akèsan. Outros estudiosos dizem que este nome significa “o senhor da missão” e pode ser chamado também de Èsù Akero possuindo o sentido de que Èsù tem a missão de supervisionar o mercado do rei. Em todas as definições dadas, podemos concluir que Èsù é o grande supervisor do universo, o grande vigia do mundo material e espiritual.

Laróyè Èsù – Salve Exú o Senhor de todos os cargos
A pàdé Olonà e mo juba Òjisè
Àwa se awo, àwa se awo, àwa se awo
Mo juba Òjisè

Vamos encontrar o Senhor dos Caminhos
Meus respeitos ao mensageiro
Vamos cultuar, vamos cultuar, vamos cultuar
Meus respeitos ao mensageiro.

A Criação de Èsù

Existem diversas lendas, opiniões, visões e teorias sobre a criação deste Orixá. A que eu adotei como sendo a mais lógica, alguns apontam personagens diferentes desta lenda como Ajalà, Odúdùwà e outros. A que eu adotei é a seguinte:
Èsù foi criado por Oxalá a mando de Olórùn (Deus). Deus, antes de criar a humanidade, determinou a Oxalá que criasse um ser, que tivesse um corpo diferente do que eles possuíam.
Oxalá então pegou o barro, água e uma pedra chamada laterita vermelha e modelou um ser que possuía formas. Em seguida, Olórùn utilizou seu sopro divino (Emì) para dar vida para aquele ser. Passaram então a observar seus comportamentos e, a partir dele, decidiram criar os seres humanos.
Por ter sido o primeiro a ser gerado, Èsù possuiu grandes poderes e responsabilidades. É por esse motivo que vem a ser o mais parecido com o ser humano, pois foi modelado, criado da mesma forma que a humanidade foi gerada.
Ele é o único que, além de possuir uma grande magia, e um mistério fascinante, é, ainda por cima, o mais humano de todos os Orixás e o que mais pode entendê-lo.
Se bem observarmos, Èsù é um companheiro inseparável, que nos observa, que entende o que sentimos, que analisa o que queremos e nos ajuda se assim for permitido.
Èsù é o guardião, é o mensageiro, o protetor, é a vida, a felicidade incondicional, é a satisfação e realização pessoal. Èsù é o ser humano, é o sentimento contido em cada ser.
 
Lendas de exu:
Exú instaura o conflito entre Iemanjá, Oyá e Oxum. [Lenda 24 do Livro Mitologia dos Orixás]
Um dia, foram juntas ao mercado Oyá e Oxum, esposas de Xangô, e Iemanjá, esposa de Ogum.
Exu entrou no mercado conduzindo uma cabra.
Ele viu que tudo estava em paz e decidiu plantar uma discórdia.
Aproximou-se de Iemanjá, Oyá e Oxum e disse que tinha um compromisso importante com Orunmila.
Ele deixaria a cidade e pediu a elas que vendessem sua cabra por vinte búzios. Propôs que ficassem com a metade do lucro obtido.
Iemanjá, Oyá e Oxum concordaram e Exu partiu.
A cabra foi vendida por vinte búzios. Iemanjá, Oyá e Oxum puseram os dez búzios de Exu a parte e começaram a dividir os dez búzios que lhe cabiam. Iemanjá contou os búzios. Haviam três búzios para cada uma delas, mas sobraria um. Não era possível dividir os dez em três partes iguais. Da mesma forma Oyá e Oxum tentaram e não conseguiram dividir os búzios por igual. Aí as três começaram a discutir sobre quem ficaria com a maior parte.
Iemanjá disse: "É costume que os mais velhos fiquem com a maior porção. Portanto, eu pegarei um búzio a mais".
Oxum rejeitou a proposta de Iemanjá, afirmando que o costume era que os mais novos ficassem com a maior porção, que por isso lhe cabia.
Piá intercedeu, dizendo que , em caso de contenda semelhante, a maior parte caberia à do meio.
As três não conseguiam resolver a discussão. Então elas chamaram um homem
do mercado para dividir os búzios eqüitativamente entre elas. Ele pegou os búzios e colocou em três montes iguais. E sugeriu que o décimo búzio fosse dado a mais velha. Mas Oyá e Oxum, que eram a segunda mais velha e a mais nova, rejeitaram o conselho. Elas se recusaram a dar a Iemanjá a maior parte.
Pediram a outra pessoa que dividisse eqüitativamente os búzios. Ele os contou, mas não pôde dividi-los por igual. Propôs que a parte maior fosse dado à mais nova. Iemanjá e Oyá.
Ainda um outro homem foi solicitado a fazer a divisão. Ele contou os búzios, fez três montes de três e pôs o búzio a mais de lado. Ele afirmou que, neste caso, o búzio extra deveria ser dado àquela que não é nem a mais velha, nem a mais nova. O búzio devia ser dado a Oyá. Mas Iemanjá e Oxum rejeitaram seu conselho. Elas se recusaram a dar o búzio extra a Oyá.
Não havia meio de resolver a divisão.
Exu voltou ao mercado para ver como estava a discussão. Ele disse: "Onde está minha parte?".
Elas deram a ele dez búzios e pediram para dividir os dez búzios delas de modo eqüitativo.
Exu deu três a Iemanjá, três a Oyá e tre a Oxum. O décimo búzio ele segurou.
Colocou-o num buraco no chão e cobriu com terra.
Exu disse que o búzio extra era para os antepassados, conforme o costume que se seguia no Orum
Toda vez que alguém recebe algo de bom, deve-se lembrar dos antepassados.Dá-se uma parte das colheitas, dos banquetes e dos sacrifícios aos Orixás, aos antepassados. Assim também com o dinheiro. Este é o jeito como é feito no Céu. Assim também na terra deve ser.
Quando qualquer coisa vem para alguém, deve-se dividi-la com os antepassados. "Lembrai que não deve haver disputa pelos búzios."
Iemanjá, Oyá e oxum reconheceram que Exu estava certo. E concordaram em aceitar três búzios cada.
Todos os que souberam do ocorrido no mercado de Oió passaram a ser mais cuidadosos com relação aos antepassados, a eles destinando sempre uma parte importante do que ganham com os frutos do trabalho e com os presentes da fortuna.

Exú torna-se o amigo predileto de Orunmila. [Lenda 27 do Livro Mitologia dos Orixás]

Como se explica a grande amizade entre Orunmila e Exu, visto que eles são opostos em grandes aspectos ?
Orunmila, filho mais velho de Olorun, foi quem trouxe aos humanos o conhecimento do destino pelos búzios. Exu, pelo contrario, sempre se esforçou para criar mal-entendidos e rupturas, tanto aos humanos como aos Orixás. Orunmila era calmo e Exu, quente como o fogo.
Mediante o uso de conchas adivinhas, Orunmila revelava aos homens as intenções do supremo deus Olorun e os significados do destino. Orunmila aplainava os caminhos para os humanos, enquanto Exu os emboscava na estrada e fazia incertas todas as coisas. O caráter de Orunmila era o destino, o de Exu, era o acidente. Mesmo assim ficaram amigos íntimos.
Uma vez, Orunmila viajou com alguns acompanhantes. Os homens de seu séqüito não levavam nada, mas Orunmila portava uma sacola na qual guardava o tabuleiro e os Obis que usava para ler o futuro.
Mas na comitiva de Orunmila muitos tinham inveja dele e desejavam apoderar-se de sua sacola de adivinhação. Um deles mostrando-se muito gentil, ofereceu-se para carregar a sacola de Orunmila. Um outro também se dispôs à mesma tarefa e eles discutiram sobre quem deveria carregar a tal sacola.
Até que Orunmila encerrou o assunto dizendo: "Eu não estou cansado. Eu mesmo carrego a sacola".
Quando orunmila chegou em casa, refletiu sobre o incidente e quis saber quem realmente agira como um amigo de fato. Pensou então num plano para descobrir os falsos amigos. Enviou mensagens com a notícia de que havia morrido e escondeu-se atrás da casa, onde não podia ser visto. E lá Orunmila esperou.
Depois de um tempo, um de seus acompanhantes veio expressar seu pesar. O homem lamentou o acontecido, dizendo ter sido um grande amigo de Orunmila e que muitas vezes o ajudara com dinheiro. Disse ainda que, por gratidão, Orunmila lhe teria deixado seus instrumentos de adivinhar.
A esposa de Orunmila pareceu compreende-lo, mas disse que a sacola havia desaparecido. E o homem foi embora frustrado.
Outro homem veio chorando, com artimanha pediu a mesma coisa e também foi embora desapontado. E assim, todos os que vieram fizeram o mesmo pedido. Até que Exu chegou.
Exu também lamentou profundamente a morte do suposto amigo. Mas disse que a tristeza maior seria da esposa, que não teria mais pra quem cozinhar. Ela concordou e perguntou se Orunmila não lhe devia nada. Exu disse que não. A esposa de Orunmila persistiu, perguntando se Exu não queria a parafernália de adivinhação
Exu negou outra vez. Aí Orunmila entrou na sala, dizendo: "Exu, tu és sim meu verdadeiro amigo!".
Depois disso nunca teve amigos tão íntimos, tão íntimos como Exu e Orunmila.

Exu leva aos homens o oráculo de Ifá [Lenda 28 do livro Mitologia dos Orixás]
Em épocas remotas os deuses passaram fome. Às vezes, por longos períodos, eles não recebiam bastante comida de seus filhos que viviam na Terra.
Os deuses cada vez mais se indispunham uns com os outros e lutavam entre si guerras assombrosas. Os descendentes dos deuses não pensavam mais neles e os deuses se perguntavam o que poderiam fazer. Como ser novamente alimentados pelos homens ? Os homens não faziam mais oferendas e os deuses tinham fome. Sem a proteção dos deuses, a desgraça tinha se abatido sobre a Terra e os homens viviam doentes, pobres, infelizes.
Um dia Exu pegou a estrada e foi em busca de solução. Exu foi até Iemanjá em busca de algo que pudesse recuperar a boa vontade dos homens. Iemanjá lhe disse: "Nada conseguirás. Xapanã já tentou afligir os homens com doenças, mas eles não vieram lhe oferecer sacrifícios".
Iemanjá disse: "Exu matará todos os homens, mas eles não lhe darão o que comer. Xangô já lançou muitos raios e já matou muitos homens, mas eles nem se preocupam com ele. Então é melhor que procures solução em outra direção.Os homens não tem medo de morrer. Em vez de ameaçá-los com a morte, mostra a eles alguma coisa que seja tão boa que eles sintam vontade de tê-la. E que, para tanto, desejem continuar vivos".
Exu retornou o seu caminho e foi procurar Orungã.
Orungã lhe disse: "Eu sei por que vieste. Os dezesseis deuses tem fome. É preciso dar aos homens alguma coisa de que eles gostem, alguma coisa que os satisfaça.. Eu conheço algo que pode fazer isso. É uma grande coisa que é feita com dezesseis caroços de dendê. Arranja os cocos da palmeira e entenda seu significado. Assim poderás conquistar os homens".
Exu foi ao local onde havia palmeiras e conseguiu ganhar dos macacos dezesseis cocos. Exu pensou e pensou, mas não atinava no que fazer com eles. Os macacos então lhe disseram: "Exu, não sabes o que fazer com os dezesseis cocos de palmeira? Vai andando pelo mundo e em cada lugar pergunta o que significam esses cocos de palmeira. Deves ir a dezesseis lugares para saber o que significam esses cocos de palmeira. Em cada um desses lugares recolheras dezesseis odus. Recolherás dezesseis histórias, dezesseis oráculos. Cada história tem a sua sabedorias, conselhos que podem ajudar os homens. Vai juntando os odus e ao final de um ano terás aprendido o suficiente. Aprenderás dezesseis vezes dezesseis odus. Então volta para onde moram os deuses. Ensina aos homens o que terás aprendido e os homens irão cuidar de Exu de novo".
Exu fez o que lhe foi dito e retornou ao Orun, o Céu dos Orixás. Exu mostrou aos deuses os odus que havia aprendido e os deuses disseram: "Isso é muito bom".
Os deuses, então, ensinaram o novo saber aos seus descendentes, os homens.Os homens então puderam saber todos os dias os desígnios dos deuses e os acontecimentos do porvir. Quando jogavam os dezesseis cocos de dendê e interpretavam o odu que eles indicavam, sabiam da grande quantidade de mal que havia no futuro. Eles aprenderam a fazer sacrifícios aos Orixás para afastar os males que os ameaçavam. Eles recomeçavam a sacrificar animais e a cozinhar suas carnes para os deuses. Os Orixás estavam satisfeitos e felizes. Foi assim que Exu trouxe aos homens o Ifá. 


Samir Castro

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