Historia das Senzalas – Início da Umbanda - Uma Nova Visão

Durante o período da escravidão, os escravos fizeram de tudo para manter vivo o seu culto, ali, misturados a tribos rivais, tribos com as quais lutaram durante anos e anos em terras africanas, em busca de expandir seus reinos com as conquistas de territórios. Aqui no Brasil, tiveram que fundir seus cultos e seus dialetos. Os povos Bantu, especificamente os povos de Angola (Kimbundo) e os povos Congo (Kikongo), foram os que mais sofreram, pois são os primeiros povos escravizados; todo seu dialeto, suas divindades, foi se perdendo com o passar do tempo e, ao se verem misturados com povos das regiões de Kétu, Agba, Egba, Oyo, Nupe e tantas outras regiões, por ser mais predominante, então, os povos Bantu acabaram fundindo suas ritualísticas com esses outros povos.
O que era comum entre todos eles, era o culto ao ancestral, à ancestralidade, tanto que hoje conhecemos o culto a Bàbá Egùn (Ancestrais Masculinos) e a Gelede (Ancestrais Femininos), que são particularidades do povo Kétu. Por exemplo, geralmente eles vem vestidos com roupas ligadas a determinadas tribos e Divindades. Eles são a representação familiar, a raiz ancestre de um povo. Já os povos de Bantu, além de manifestarem seus ancestrais, possuíam um culto parecido com a Umbanda que conhecemos, manifestavam espíritos não só de familiares, mas outros, que faziam atendimento e davam orientação aos seus.
E isso era mantido nas senzalas durante as danças e festas permitidas pelos senhores de Engenho, pois notavam que assim, os escravos trabalhavam com mais entusiasmo.
E durante essas festividades, além de manifestar seus Deuses, manifestavam também os espíritos de escravos mais velhos, os pretos-velhos, espíritos mais jovens que sofreram, lutaram e fizeram tudo que foi possível para manter a vida. Eles eram uma espécie de guardiões e por isso entendemos o porque de serem chamados de Exus pelo povo de Kétu, pois o Orixá Èsù é um mensageiro, um guardião e esses espíritos se assemelhavam a eles. Além disso, tínhamos a presença de espíritos femininos, também guardiões, comparados a Punjila/Bombogira, uma divindade feminina Bantu, que com o passar do tempo e nos dias atuais, chamamos de Pombagira ou Pombogira, que teria a mesma definição de Èsù
Além dos povos africanos, temos a mistura com os índios e o surgimento do sincretismo religioso dentro das senzalas, a assimilação de imagem católicas as Divindades Africanas, no intuito de tentaram preservar uma parte do culto, apesar de toda a Catequese feita pelos Jesuítas.
Daí temos mais uma mistura na questão ancestral: começaram a manifestar Caboclos e Boiadeiros. Geralmente os Boiadeiros eram considerados capatazes das fazendas que por algum arrependimento se comprometiam espiritualmente em auxiliar aqueles que ali estavam escravizados.
Com a questão de manifestar espíritos que não são necessariamente Ancestrais, é que se diz que a Umbanda surge nos cultos de Angola, por isso o uso de termos como Zambi (Deus), Lume (Luz), Malembe (Súplica), Kazuá (Casa), Marafo (Bebida Alcoólica), são presentes no culto Umbandista até os dias atuais, assim como os ritmos usados nos atabaques, tais como: Barra-Vento, Congo, Cabula, Samba de Cabula, Samba de Caboclo, São Bento Grande, Congo de Ouro, Ijexá e outros, que apresentam traços tanto de Angola quanto de Kétu.
Além disso, o próprio nome “Nbanda”, cuja pronuncia é “Umbanda”, significa sacerdote, incorporação, manifestação, curandeiro e tantos outros significados. Infelizmente, vemos muitas coisas erradas sendo ditas sobre esta questão, até mesmo a invenção de um plano espiritual chamado Umbandã, e também uma comparação desnecessária com Atlântida, dizendo que um Sacerdote Aumbandhã, um instrumento da magia branca, seria a essência da Umbanda.
Outro surgimento da Umbanda se dá pelo registro histórico, feito por Zélio de Moraes.
O texto a seguir apresenta uma das diversas visões sobre Umbanda:
As raízes da umbanda são controversas. Segundo alguns umbandistas, a Umbanda foi fundada em 1908 pelo Médium Zélio Fernandino de Moraes, através do Caboclo das Sete Encruzilhadas.
Antes disso, já havia, de fato, o trabalho de guias (pretos-velhos, caboclos, crianças), assim como simples manifestações religiosas espontâneas cujos rituais envolviam incorporações e o louvor aos orixás. Entretanto, foi através de Zélio que organizou-se uma religião com rituais e contornos bem definidos à qual deu-se o nome de umbanda.
Nessa época, não havia liberdade religiosa. Todas as religiões que apontavam semelhanças com rituais afros eram perseguidas, os terreiros destruídos e os praticantes presos.
Em 1945, José Álvares Pessoa, dirigente de uma das sete casas de umbanda fundadas inicialmente pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, obteve junto ao Congresso Nacional a legalização da prática da umbanda.
A partir daí, muitas tendas cujos rituais não seguiam o recomendado pelo fundador da religião, passaram a dizer-se umbandistas, para fugir da perseguição policial. Foi aí que a religião começou a perder seus contornos bem definidos e a misturar-se com outros tipos de manifestações religiosas. De tal forma que hoje a umbanda genuína é praticada em pouquíssimas casas.
Hoje, existem diversas ramificações onde podemos encontrar influências que utilizam a palavra umbanda, como as indígenas (Umbanda de Caboclo), as africanas (Umbandomblé, Umbanda traçada) e diversas outras de cunho esotérico (Umbanda Esotérica, Umbanda Iniciática). Existe também a "Umbanda popular", onde encontraremos um pouco de cada prática, onde o sincretismo (associação de santos católicos aos orixás africanos) é muito comum.
Os fundamentos da umbanda variam conforme a vertente que a pratique.
Existem alguns conceitos básicos que são encontrados na maioria das casas e assim podem, com certo cuidado, ser generalizados para todas as formas de umbanda. São eles:
  • A existência de uma fonte criadora universal, um Deus supremo, chamado Olorum. Algumas das entidades, quando incorporadas, podem nomeá-lo de outra forma, como por exemplo Zambi para pretos-velhos, Tupã para caboclos, entre outros, mas todos são o mesmo Deus;
  • A obediência aos ensinamentos básicos dos valores humanos, como: fraternidade, caridade e respeito ao próximo;
  • O culto aos orixás como manifestações divinas (alguns umbandistas cultuam a chamada umbanda branca, que não cultua os orixás, sendo unicamente voltada ao culto de caboclos, pretos velhos e crianças), em que cada orixá controla e se confunde com um elemento da natureza ou da própria personalidade humana;
  • A manifestação dos Guias para praticar o trabalho espiritual, incorporando em seus médiuns ou "aparelhos";
  • Uma doutrina, uma regra, uma conduta moral e espiritual que é seguida em cada casa de forma variada e diferenciada, mas que existe para nortear os trabalhos de cada terreiro;
  • A crença na imortalidade da alma;
  • A crença na reencarnação e nas leis cármicas.
Os Orixás são manifestações do Grande Deus Olorum. Orisha é uma palavra yoruba para designar um ser sobre-humano, ou um deus. Todo o universo surge de Olorum através das radiações que são individualizadas e personificadas em orixás. Essas radiações são personificadas de formas diferentes nos diversos terreiros - depende da influência histórica que cada um sofreu. A radiação (vibração da água) pode ser relacionada apenas a Iemanjá, mas pode ser subdividida em Oxum (água doce), Nanã (pântano) e Iemanjá (mares). Ocorre forma semelhante com Ossain e Oxóssi (matas).
Muitos escritores da umbanda relacionam as famosas Sete Linhas aos Orixás, outros preferem relacionar as Sete Linhas com as “vibrações” e não diretamente a “orixás”, já que eles são mais de sete.
Como se sabe, os orixás não são originários da umbanda. Muito antes eles já eram reverenciados nas terras africanas por diversas tribos. Muitos deles não se tornaram conhecidos aqui no Brasil, e até mesmo nas tribos africanas, cada uma possuía seu orixás e desconhecia outros que eram cultuados em tribos diferentes.
Quando começou o tráfico de escravos, muitos negros de tribos diferentes foram vendidos juntamente. Dessa forma, os diversos orixás de tribos distantes se encontraram em terras brasileiras e formaram o grande panteão do Candomblé. Notadamente a nação que mais influenciou foi a Iorubá.
Podemos dizer que a umbanda é uma junção de elementos africanos (orixás e culto aos antepassados), indígenas (culto aos antepassados e elementos da natureza), Catolicismo (o europeu, que trouxe o cristianismo e seus santos que foram sincretizados pelos Negros Africanos), Espiritismo (fundamentos espíritas, reencarnação, lei do carma, progresso espiritual, etc).
A umbanda prega a existência pacífica e o respeito ao ser humano, à natureza e a Deus. Respeitando todas as manifestações de fé, independentes da religião. Em decorrência de suas raízes, a umbanda tem um caráter eminentemente pluralista, compreende a diversidade e valoriza as diferenças. Não há dogmas ou liturgia universalmente adotadas entre os praticantes, o que permite uma ampla liberdade de manifestação da crença e diversas formas válidas de culto.
A máxima dentro da umbanda é "Dê de graça, o que de graça recebestes: com amor, humildade, caridade e fé".
Mantém-se na umbanda (em algumas umbandas, pois há as que não utilizam imagens, já que na sua maioria, são de santos católicos sincretizados) o sincretismo religioso com o catolicismo e os seus santos, assim como no antigo Candomblé dos escravos, por uma questão de tradição, pois antigamente era necessário, como forma de tornar aceito o culto afro-brasileiro sem que fosse visto como algo estranho e desconhecido, e, portanto, perseguido e combatido.
Há também, discordância sobre as cores votivas de cada orixá, conforme o local do Brasil e a tradição praticada por seus seguidores. Da mesma forma quanto ao Santo sincretizado a cada Orixá.

Existem diversas visões sobre a Umbanda. Há um grupo que defende que a Umbanda foi criada através da manifestação dos Caboclos com bases kardecista e católica. Defendem que a Umbanda não surgiu em senzalas e que isso seria uma bestialidade, uma banalidade e um insulto. Então, baseado neste pensamento que considero medíocre, pergunto: se a Umbanda é formada por caboclos apenas, o que fazem ali os pretos-velhos e os Orixás? Ora, nomes como Exú, Ogum, Oxóssi, Xangô e tantos outros, são do dialeto Yórùba e todos correspondem a Orixás, que é outra palavra Yórùba, e ainda por cima todos são divindades da nação Kétu. Se querem retirar o mérito do povo negro na constituição das religiões afrobrasileiras, por que então cultuar tais divindades?
O que me deixa muito triste, magoado, é que esses cidadãos defendem essa tese a ferro e fogo. Porém, adoram imitar as vestimentas da minha querida Nação Kétu. Por isso digo: sou Candomblecista, amo minhas entidades de Umbanda, amo a Umbanda e afirmo que, para combatermos o preconceito, a intolerância, devemos começar a limpar primeiramente a nossa própria casa.


 Texto do Curso
Sentinelas e Mensageiros
Reinado dos Exús, Pombagiras e Exús Mirins na Umbanda - Magias, Fundamentos, Mistérios e Axé
Samir Castro

Fonte: Acervo Cultural Luz e Verdade

Comentários

  1. Boa tarde!

    Gostei muito do seu texto. Vai de encontro com a minha linha de pensamento.
    Sou Umbandista da Tenda de Umbanda Pai João da Caridade na cidade de São Vicente - SP.
    Em nossa casa louvamos os Orixás, respeitamos muito nossos guias, tocamos nossos atabaques e mantemos o sincretismo,por tradição...
    Adorei!
    Saravá!

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  2. Belo texto. Infelizmente o preconceito racial esta presente ate mesmo em uma religião de origem afro, é lamentável.

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